A Cachorrada

 

 

Aconteceu logo que o Antônio Português comprou o pedaço de terra, lá pras bandas dos contrafortes da serra, em Peruíbe. 
Com o passar dos anos, depois da aposentadoria, passou a ser o  local de sua moradia e nós perdemos o contato com ele.

Alguns membros da turma - sempre os mesmos - iam para lá constantemente, e se acomodavam em  uma barraca, que não era mais que uma grande cobertura de lona, sem laterais, armada sobre algumas travessas, sustentadas por quatro ou seis palanques, onde penduravam as redes.

Eram finais de semana de lazer, passeios, banhos de rio e caçadas, em total despreocupação com a vida; coisa de solteiro.

Quantas histórias existem e se ouve, ainda, sobre aquela época. Havia vezes em que ia o grupo todo; muitos eram bichos de cidade e se admiravam ou se espantavam com uma pequena cobra caninana que cruzasse a trilha por onde passassem ou, então, levavam uma noite em claro, com medo de serem devorados por alguma onça faminta.

Quando iam somente os dois inseparáveis amigos – o Magrão e o Português – eles não deixavam de levar, também, a cachorrada, que era a companhia constante deles, nos passeios e nas caçadas.

Foi numa dessas estadas que o Magrão, cuidando do churrasco, arrumou o maior fuzuê.

Naquele negrume das noites por aquelas paragens eles viam, dos animais, apenas o brilho vermelho dos olhos fixos, na espreita. Vez por outra o Magrão atirava um pedaço de carne, bem longe e ouvia-se o tropel dos animais em busca do alimento e as suas rusgas momentâneas.

Foi exatamente na hora em que o Português se lambia de prazeres, devorando a carne, atravessada pelo espeto, que mantinha entre os dentes, que o nosso amigo (talvez da onça) resolve atirar mais um pedaço de carne aos animais mas, desta feita, bem perto do cotruco.

Uma fração de segundo, e a barraca era uma praça de guerra. Os animais famintos, nenhuma vez haviam se aproximado muito, mas agora rolavam pela terra, juntamente com o portuga, que, ora os atacava e de outras, se defendia. Era impossível saber quem mordia quem ou, quem gania ou quem latia.

O Magrão escapou de apanhar porque o cotruco ficou todo machucado mas, nunca mais foi convidado para esses acampamentos de final de semana.

Parece-me até que, foi depois desse episódio que os dois nunca mais se falaram.

Não, não foi aí, ainda, que eles deixaram de se falar. Houve uma última cahorrada do Magrão e que resultou na quebra daquela velha amizade, mas essa história eu lhes conto depois.

 

Carlos Gama. "www.suacara.com

10 de dezembro de 2002 – 01:53 h

 

 

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