A Dupla

 

O Magrão, a maioria de vocês já conhece, é meu amigo...Não?

Realmente, a mancada foi minha. Você não estava entre a maioria. Vou sugerir que você dê uma lida em “O Desligado”, um texto que se aprofunda um pouco mais na descrição física e na personalidade deste meu amigo. Mas, enquanto isso não acontece e para que possamos dar continuidade a este pequeno enredo, eu peço desculpas aos meus outros leitores (que na verdade, cá entre nós, são no máximo mais dois) e vou descrever este personagem, superficialmente.

Coroa com ar de adolescente; ares de nobre, andar ereto e roupa esporte ou social, de grife ou, quem sabe, bermudas meio longas, chinelo de dedo ou tênis surrado e um andar gingado de malandro; geralmente simpático ; bela voz; ritmo incontestável no atabaque ou, até, em um surdo improvisado no latão  de lixo; dedos ágeis nas cordas de um violão ou uma guitarra e complementando tudo isso, uma aptidão para o teatro, de fazer inveja a muitos profissionais de fama consagrada.

Eis aí uma rápida descrição do personagem, que nem é o principal.

O personagem principal deste ato é a sua “mina”, mais jovem do que ele mas, já bem passada dos trinta.

Casal moderninho e descomprometido com as normas falsas, da sociedade humana, eles se vêem quando é possível e aí, dividem a mesma cama. Encontros não tão constantes, bem a gosto de meu amigo liberto e libertário; que mora em Santos e arrumou mulher em outro Estado e, além disso, ligada a compromissos profissionais que a mantém nesta regular distância. Quando um dos dois consegue juntar uma licença à vontade de se ver, eles se encontram e põe em dia as vontades carnais – com camisinha, claro! – e os assuntos mais banais.

Mesmo com toda essa aparente desafinação, eles se entendem muito bem e formam um par simpático e muito semelhante em algumas peculiaridades do “ser” e no “agir”.

Creio eu, pela observação, que o maior elemento afim é o distraimento, comum aos dois. Se não, observe o diálogo depois do passeio solitário que os dois fizeram naquela tarde de sábado, num shopping em São Paulo. Pode parecer uma incongruência eu dizer que foi um passeio solitário, apesar de eles serem dois, mas foi assim mesmo. Ele para o automóvel à entrada do shopping, para que ela desça e fique passeando a começar do andar térreo e ele vai estacionar o veículo no último andar e depois vem descendo sozinho, viajando no olhar pelas vitrines e outras coisas mais.

Depois, como que casualmente, eles se encontram pelo meio do caminho, ou se desencontram, quem sabe!

Encontraram-se, nesse dia, e ela vai logo desfiando as contas do rosário da observação contundente e feminina.

-Tu me deixaste ali no piso e eu fui dar um bordejo, sem muitas pretensões. No meio daquele burburinho todo, sabes que encontrei uma amiga de infância? Não nos víamos desde a adolescência.

Eu já imagino aquele falso ar de seriedade que ele faz mas, por dentro, é puro sarcasmo.

-Aí ela me conta que casou e eu digo a ela que eu também. Bem, quase, não é? Fiquei ali, matando as saudades da amiga, olho no olho. Não conseguia despregar a atenção...Como ela está cheia de pés de galinha! Mesmo atenta, fui percebendo o vulto do guri que estava a seu lado. Mas eu estava “parada” no contorno daqueles olhos amigos que não conseguia desviar o olhar mas, mesmo assim, ia estendendo, instintivamente a mão para acariciar a cabeça da criança e ela, esquiva, se afastava.

Conversa vai, conversa vem e eu grudada em seu rosto...Quanta ruga junta! Estendia, novamente a mão em direção à criança e ela, novamente, saía de maneira brusca.

Depois de muita conversa, muita dor nos olhos e muitas esquivas da criança, ela desperta, tira o seu olhar do meu e me apresenta o marido;  aquela “coisinha” mais engraçadinha.

Carlos Gama. www.suacara.com

 

24 de janeiro de 2002 14: 38 :


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