A Preço de Banana

  

Aconteceu, durante uma viagem, na volta de Santa Catarina.

Contrariando o seu jeito tranqüilo, ele vinha babando de raiva com algumas constatações que fizera, durante a viagem.

Ele tem esse jeito meio moleque e brincalhão mas observa tudo o que passa à sua volta e, quando a coisa diz respeito às normas, à saúde e à segurança, ele fica doidinho com as falhas.

Durante todo o trajeto de ida, nas rodovias federais, ele prestou a atenção a um fato muito estranho e que, depois de analisar, deixou-o perplexo com o descaso e a incompetência do DNER. Tanto no Estado de São Paulo, quanto no Paraná, ele nos contou que existem dezenas de placas que orientam sobre o limite de velocidade mas que não têm validade; foram, apenas, esquecidas; ou melhor, nem se preocuparam em retirá-las, depois da duplicação das pistas e do aumento dos limites de velocidade. Daí, segundo ele, você se depara, em um mesmo trecho com uma placa indicando velocidade de 60 km/h, alguns metros após há uma outra que indica esse limite em 100 km/h e, mais adiante o inverso e vice e versa. Disse que só percebeu que era o resultado do descaso, ao observar que as placas, indicando limites menores, estavam velhas e com a pintura desbotada.

Curtiu, muito, a beleza de Santa Catarina e a preocupação com o meio ambiente mas entristeceu-se ao encontrar uma lata de cerveja, uma embalagem de 2 litros de refrigerante e um saco plástico de biscoitos, todos vazios, boiando no Rio Vermelho, junto à Lagoa da Conceição.

Estranhou, muito, o desrespeito aos limites de velocidade, em Florianópolis, especialmente por parte dos caminhões. Nos presenteou, inclusive, com os números das placas de alguns deles. Disse que era para rememorarmos a farsa da segurança no trânsito, que ele notou ser igual a outros lugares e para que soubéssemos, sempre, que por onde quer que andássemos estaríamos sob a mesma lona.

Ele costuma dizer que o nosso país é um circo e eu o apoio.

Em Curitiba - disse-nos - a coisa não é diferente. Você houve falar de um Estado desenvolvido e bem planejado mas a capital ainda é administrada por patrícios. Saíram da cidade e entraram na estrada que os levaria a São Paulo, sem encontrarem qualquer indicação e, após alguns quilômetros, às cegas, é que descobriram ter acertado, por puro acaso.

Ele nos contou, também, que os controladores de velocidade, em Curitiba, eram iguais aos de Santa Catarina, apenas "para inglês ver". Logo que venciam as barreiras de fiscalização (que todos sabem onde ficam), os veículos saíam em louca disparada, confirmando a farsa.

Jurou que não viaja mais na BR 116, enquanto esta não estiver totalmente duplicada. Em trechos de serra, andava com o coração saindo pela boca, com um caminhão colado na traseira e ele a 110 km/h, na descida.

-É coisa de louco, malandro! Dizia-nos, ele. Qualquer das situações que eu e a mina passamos, se eu contar, vocês não vão acreditar. Andar naquela estrada, nos trechos não duplicados, é coisa de filme de terror. Depois de viajarmos dois mil e seiscentos quilômetros, não encontramos um policial, sequer. Bem, isso eu vou ter que explicar melhor, para vocês. Havia os postos da Polícia Rodoviária Federal mas, nenhum policial à vista, em nenhum deles, tanto na ida como na volta. Porra! Mas, depois daquele sufoco, eu fui pedindo pra mina ir anotando algumas chapas de caminhões; dos mais malucos e irresponsáveis, que eu iria entregar na primeira cabine, da polícia, que encontrássemos. Aí, já no Estado de São Paulo, eu resolvi parar e me queixar a um policial rodoviário. Foi a maior furada! Logo que parei o carro, o policial veio ao nosso encontro. A mina desceu, quase chorando com o sufoco que passamos em vários momentos, e foi logo dizendo que quase morrêramos, como resultado dos abusos e da loucura de alguns motoristas.

-Não se preocupem, daqui para a frente, é pista dupla e não vai ter problema. Mas, antes que vocês se vão, deixe-me ver os seus documentos e os do veículo - diz ele para mim. 

-Mal lhe entreguei os documentos, ele deixou cair a carteira de habilitação, que eu recolhi, no chão. E me pediu, do carro, os documentos válidos porque, aqueles, estavam vencidos. Não pode ser, peguei-os no despachante, antes de viajar, faz uns quinze dias. O que pode ter havido é, na pressa de sair para a viagem, eu ter trocado a fotocópia dos documentos atualizados, pelos anteriores.

-Podem retirar, do carro, as coisas de que precisam porque ele vai ser retido, até que apresentem a documentação atualizada e recolham o valor das multas.

-O senhor não vai nos deixar aqui na estrada, à meia noite, com chuva e com toda essa bagagem, não é?

-Claro que não! Paro um ônibus e vocês vão, tranqüilamente, de leito até São Paulo.

-Sabedora, por ouvir dizer, que o valor das infrações de ICMS são recolhidas nas agências bancárias, depois da lavratura dos autos de infração, nos postos de fiscalização e, naquele nervoso, sequer se lembrando que era noite, a mina perguntou a ele:

-Onde é que podemos pagar?

-Podem cruzar a pista e estacionar o carro ao lado da cabine - diz o nosso amigo.

-Cruzamos, sob risco mas com muito cuidado, estacionamos e descemos. Ele nos esperava, dentro do posto de arrecadação, sentado atrás da escrivaninha. Ao nos aproximarmos, ele abre a gaveta e diz: podem pagar! Foi aí que percebemos a mancada que fora a pergunta da mina. Mas não tinha mais volta. Malandro, pela primeira vez eu ia entrar nessa fria de “colaborar”, segundo ele, para a compra de um sítio.

-Quanto é o valor?

-A multa é R$ 487,00 mais a estadia do veículo e o dissabor de viajar de ônibus para casa. Que tal, duzentos e cinqüenta?

-O senhor não vai aceitar cheque, vai? – pergunto eu.

Ele me olha, de lado e sorri, com escárnio.

-Perguntei, porque temos quase nada de dinheiro conosco. Eu tenho dez reais na carteira e ela, pouco mais que isso.

-E eu, tenho vinte reais – diz a mina, prontamente.

-Era a mais pura verdade! Tínhamos “tirado” dinheiro em um caixa eletrônico, em Santa Catarina e viéramos fazendo compras, pelo caminho.

-Como é que vocês sabem o que cada um tem na carteira?

-Pegamos cem reais no banco e viemos comprando umas coisas – diz a mina.

-Primeiro vamos ver o dinheiro!

-Abro a carteira, e lá está a nota de dez. A mina abre a carteira e vai retirando a nota de dez, dez notas de um e dois dólares (sobra e lembrança de uma viagem à Europa). Foi tudo direto para o “caixa”, colocado por nós. Ele nem se mexeu, a não ser para fechar novamente a gaveta.

-Se vocês não tivessem gastado o dinheiro, iriam deixar ele comigo?

-Mas é claro, seu guarda! Dissemos, prontamente e em conjunto.

-Vamos ver o carro!

-Lá chegando, ele nos disse que abríssemos a porta de trás e foi olhando tudo o que ali estava. Mandou que colocássemos nas sacolas de plástico, que trouxera, tudo o que havíamos comprado depois que saíramos de Floripa: um vidro de pimentas em conserva, um queijo branco e outro amarelo, dois vidros com doce de leite, alguns pacotes de biscoito, um paio defumado, umas lingüiças e um cacho de banana ouro; pegou as duas sacolas e sumiu com elas por detrás do prédio. Não, sem antes nos dizer: vão com Deus!

Agora o Magrão anda por aí dizendo, com aquele seu ar de riso e malandragem:

-Meu chapa, a polícia me parou e eu, sem documento, saí na maior lisura. O cara me deu uma "cantada" e acabei deixando ele ir, lá pra trás da cabine, levando na  mão a minha banana. Aí, ele nos liberou, numa boa.

Depois dessa, eu até trocaria o título do texto e poria: “Apreço por Banana”.

 
Carlos Gama. "www.suacara.com

15 de abril de 2002 – 13:47 h

 

 

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