A Viagem

 

 

Para não variar, ele e a "mina".

E para complementar, um belo final de semana.

Hoje é quinta-feira, véspera de feriado em São Paulo - aniversário da cidade.

Sábado é feriadão em Santos - fundação da cidade.

A garota chega de viagem, cansada, deixa seu carro na garagem do prédio dele e sobe para um banho reparador e, quem sabe, algo mais.

Tomara! Pensa ela, ainda no elevador.

O malandro faz a maior festa mas, percebendo o risco, vai logo dizendo que ela se apronte bem rápido que eles vão sair “loguinho” para uma surpresa que ele quer lhe fazer.

E ele lá é bobo! Mesmo sabendo que ela viria ele não pôde dispensar a morena do décimo andar, a quem ele vinha convidando fazia tempo, para um drinque na pequena piscina do apartamento.

Mas, com essa chegada antecipada da gata, nem dera tempo de desavermelhar o bicho.

Do lado de fora do banheiro ele agita:

-Vamos, meu bem! Se não, teremos que enfrentar o maior movimento na estrada.

Todo vestido, ele está prontinho para sair; sunga, por cima uma samba-canção, um short e depois a bermuda longa. Ah! O short com forro, que é para firmar a garantia de que ela não chegaria lá, em hipótese alguma, antes de chegarem ao destino final: Ilhabela.

Logo de saída, a dúvida: Pela balsa, cuja fila se alonga por alguns quilômetros - em razão da operação tartaruga, que o pessoal da DERSA está fazendo, depois que os serviços foram privatizados e eles se vêem às portas da rua da amargura - ou pelo Cubatão, o que alongaria a viagem em uns vinte quilômetros?

Ela prefere a balsa e ele o Cubatão. Em razão disso, decidem no par ou ímpar. Essa, ela ganhou; vão pela balsa.

Ele havia optado pela ida por Cubatão que, apesar de mais longa, não permitiria conversas mais densas, nem alongamentos  mais íntimos de mãos, por estarem em movimento. A fila da balsa previa ele, oferecia a possibilidade de riscos inúteis. E não deu outra!

Aquela história de roupa por cima de roupa, que não acabava mais, deixou a "mina" encafifada e de beicinho durante o restante da viagem e, com isso, conseguiu um quase milagre; tirar o Magrão do sério.

Não sei se, de verdade ou, apenas, encenação. Mas, iam eles, depois de um certo trecho, em completo silêncio.

Bem antes de Boissucanga, o maior congestionamento. Tudo parado, de vez.

Aí ela resolve deixar de lado as broncas e afagar os cabelos do companheiro, que relaxa e quase dorme. Mas acaba despertando desta madorna, pelo toque meio brusco do veículo de trás, no pára-choque de seu carro.

Ele ergue o corpo, olha no retrovisor e encontra olhar tranqüilo do outro condutor, que lhe acena com a mão direita, num simpático pedido de desculpas. O Magrão, simpaticíssimo como sempre, retribui o aceno, como a dizer: não tem problema.

Um pequeno deslocamento na fila e novamente uma parada. Ele recosta a cabeça para o carinho da amada e, outra vez, o toque na traseira do veículo, ocasionando novo susto no casal.

No espelho ele encontra o olhar risonho e simpático do outro condutor, que lhe acena em um mudo desculpar-se.

O Magrão sorri para deixar o outro sem constrangimentos mas comenta com a acompanhante:

-Cara chato, distraído...

É interrompido por mais um deslocamento do carro da frente, que o obriga a dar a partida e acompanhá-lo, por mais alguns metros, antes de frear, lentamente. Olha no retrovisor e percebe que o outro, também, já estava parado, agora já mais distante. Talvez por prevenção – pensa.

Viciado em um carinho pelo toque dos dedos nos cabelos, ele recosta o corpo e se deleita com o passear dos dedos por entre eles. Mas é retirado deste estado letárgico, por uma batida mais forte, que sacode brutalmente o seu carro.

Assustado e meio tenso, ele olha no espelho e a mesma mão lhe acena, da mesma forma que anteriormente. Ele retribui, de cara fechada e com má vontade, ao aceno do outro.

-Esse cara me parece que está se fazendo de besta, não é só distração!

-Deixa pra lá, benzinho, seu carro tem engate; o problema é dele.

-É verdade! E eu não vou deixar de curtir os seus carinhos por causa disso.

E ali ficaram por longo tempo, já que a fila não se movia.

Mas nem tudo é perene; e a fila, estática, também não era.

Mais um pequeno deslocamento e uma nova parada. Depois daquele longo período de afagos e de sono chegando ele nem mais se lembrava dos incidentes anteriores, quando se viu sacudido por uma nova batida.

-Agora chega! É demais! O cara quer tirar sarro comigo; eu vou lá dar uma “chupada” nele e mostrar que não sou nenhum idiota.

Nem deu tempo para que ela retrucasse ou o impedisse. Desceu do carro, bateu a porta com força, para dar ênfase à sua fúria (só aparência!), deu uma olhada provocativa para a traseira de seu próprio carro e lá se foi, gingando naquele andar de malandro em direção ao veículo de trás. Debruçou-se sobre o teto e quase enfiou a cabeça pela janela do carro do outro, que impassível o olhava com um sorriso desprevenido e puro.

-Meu chapa, qual é a sua? Toda a vez que a fila para você vem e dá um toque na traseira do meu carro. As primeiras vezes, tudo bem, podia ser distração. Mas estas duas últimas, você parou bem distante e depois vem, bate na minha traseira pede desculpas e fica me olhando com esse sorriso de pouco caso. Qual é, meu!

Ainda sorridente e tranqüilo, o seu oponente responde:

-O senhor ainda não percebeu que não sou eu? Que estamos parados em um longo e suave aclive e, a cada vez que paramos o senhor tira o pé do breque e o seu carro desce de encontro ao meu?

Eu poderia terminar por aqui a narrativa mas, tem mais...

O Magrão não deu por encerrada a sessão, nem poderia, com aquela cara de tacho que ficou.

Desembolsou o espírito de artista, arrancou o boné e atirou no chão, com força e aparente revolta. Ameaçou se ajoelhar, ensaiou um choro, seguido de um pedido de desculpas...

Para encerrar:

Quem acabou se desculpando foi o outro.

Carlos Gama. www.suacara.com 

 

24 de janeiro de 2002 – 16:07 h

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