Buraco ou Tranca?

 

Ainda hoje, pela manhã, eu falava ao meu filho sobre o nosso clube. Na verdade eu “chiava”, por conta da falta de ânimo da maioria do pessoal.

-Meu filho, eu acho besteira estarmos gastando dinheiro com mensalidade, nesse clube que mais parece um asilo de inválidos. Nem todos são velhos, mas a maioria é um bando de frouxos, que só quer ficar na barraca, jogando baralho.

Apesar de ter sido ele a provocar esse desabafo - com o convite para irmos embora, porque não havia quadra armada e ninguém com cara de que estivesse com vontade de jogar uma partida de tamboréu - nem retrucou ao meu comentário. Ele se apegou ao clube, ao pessoal e, muitas vezes, não anima os meus desabafos porque sabe que o pai demora a decidir mas, depois, não volta sobre os próprios passos.

Ficamos naquele vai, não vai e, depois de algum tempo, fomos até a barraca. Como o pessoal sabe que vamos, somente para jogar tamboréu, alguns foram se achegando, para o local onde deveria estar armada a quadra. Até aí, o meu tesão pelo jogo já estava na cama, de onde me levantei com muito custo, depois de ter ficado escrevendo até alta madrugada.

-O chão está horrível! Vamos ter que rastelar a quadra toda – digo.

-Rastelar a quadra toda, para jogar com esse vento? Ah! Essa, não. – diz o Paulão.

-Bem, gente, estou indo embora porque, quando me levantei, a cama me olhou meio de lado, como a dizer: te espero!- retruquei.

Passamos pela barraca, para nos despedirmos e lá estava o Magrão, contando fanfarronices sobre as vitórias de ontem à noite, na tranca, na sede do clube.

-Alcides, você não ganha uma!

-Vocês meteram a mão!

-É que você é burro, meu!

-Cinco rodadas, sem pegar o morto, você acha que acontece sem roubo? 

-Meu chapa: no seu estado, para pegar o morto, só depois de emborcar umas três cervejas - diz o Magrão, com o acompanhamento de um coro de ruidosas gargalhadas.

Carlos Gama. "www.suacara.com

 

 

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