Colcha de Retalhos

 

 

Como uma colcha de retalhos, de “aparentemente” pequenos momentos, é construída a memória de uma vida.

Você percebe isso, na medida em que o tempo transcorre e a memória traz, em determinados instantes, lembranças de acontecimentos simples, parecendo serem, de pouca importância. Mas, que ficaram indelevelmente gravados e resistem ao tempo e ao esquecimento.

Ocorreu-me escrever a respeito, em razão de haver me lembrado, hoje ao acordar, de um amigo a quem não vejo, faz alguns meses.

Procurando por ele, soube que se mudara para São Sebastião, realizando um sonho acalentado por muito tempo.

A casa lá estava, à espera do momento oportuno.

Foi naquele interstício, entre as festas do Natal e as de Ano Novo que, atendendo a um convite dele, fui passar esse período em São Sebastião. A casa modesta, afastada do burburinho, era acolhedora e alegre, a própria imagem do dono.

Fazia algumas dezenas de anos que eu não passava por aquela parte de nosso litoral. Desde quando eu, ainda menino, acompanhava meu pai nestes passeios. Foi, como se estivesse redescobrindo parte de meu passado e minha infância alegre e aventureira.

E talvez por isso, muitas sensações ali experimentadas, tenham sido semelhantes àquelas da meninice. O desejo incontido de uma velejada naquela pequena embarcação que ali estava à espera, no quintal da casa. Mas o tempo não ajudava e tampouco era eu o dono dela, para teimar.

Restava, pois, aguardar pacientemente e sonhar com o momento adequado.

Uma expectativa sem par e, agora, esta sensação, sobre a qual tenho sempre muita curiosidade; saber se as outras pessoas têm o mesmo sentimento em relação a esta expectativa.

É único este sabor. É um querer daquilo que está ao alcance, disponível e que, ao mesmo tempo é inalcançável, pois, não se tem o poder de decisão sobre a realização do desejo. É a submissão indesejada a uma ordem, sem que se tenha a possibilidade da contestação. Mas,  ao mesmo tempo, é uma sensação, que o passar dos anos, torna muito saborosa. Foram momentos de expectativa que acresceram sabor ao desejo mais tarde realizado.

Esta é uma impressão muito forte e presente em minhas lembranças.

Em cada lembrança das férias, na década de cinqüenta, quando chegávamos sempre de madrugada na Praia do Perequê e era preciso esperar, de má vontade, que o dia amanhecesse; enquanto as horas se arrastavam longas, preguiçosas...

Em cada momento relembrado, daquelas esperas, madrugada a dentro, na Louveira, enquanto o sol parecia haver esquecido de nascer.

As mesmas sensações da espera pelas horas dedicadas à digestão; o mar provocando e a impaciência, também! “E meu pai não dorme, para que eu possa atropelar as ordens dadas!”!

Com “imagens simples” e “pequenos momentos”, constrói-se a memória de uma vida. E, quanto mais coloridos forem os retalhos, mais aconchegante será a colcha que abriga as nossas lembranças.

 

Carlos Gama. 02/01/2000.