Colcha de Retalhos II

 

 

Passados doze dias (quase treze, daqui a dez minutos), retomo o assunto que foi a origem do escrito anterior - com o mesmo título - e que ficou incompleto por causa de minhas divagações.

Durante a estada na casa de meu amigo e a  espera pela velejada, que aconteceu e descrevo mais adiante, nós andamos a pé, pela praia da Enseada (em São Sebastião), falamos de nossos pais, de nossa infância e de tantos assuntos, daqueles que estão indelevelmente gravados na memória.

Foi uma boa oportunidade para que eu conhecesse um pouco mais sobre seu pai, que fora meu chefe, quando trabalhei na Companhia Docas de Santos. Um relacionamento profissional que se  transformou na admiração e no respeito  que  mantenho, através do tempo.

Longas e agradáveis caminhadas, gostosos banhos de mar, relembranças, muita conversa jogada fora (na aparência!). Enfim, é chegada a manhã ansiosamente esperada. Céu azul, vento favorável e, o mais importante: disposição para fazer a caminhada até a praia, empurrando a embarcação. Menos mal, por ser um pequeno “laser”.

Tínhamos levado água (bastante), dois pães com manteiga para cada um, cigarros e isqueiros. Nesta época, em 93, os dois ainda fumavam. E como!

A saída, pela Enseada, já não é fácil. É uma longuíssima extensão, sem que a água saia da altura dos joelhos. Um fundo meio lodoso, que te retém a cada passo. Mas, vamos sem pressa, proseando e empurrando a condução. Enfim, após algumas centenas de metros caminhando desta forma, a água começa a subir, acima dos joelhos. É hora de colocar a bolina, a cana do leme, aprestar a retranca e deixar que a natureza nos conduza.

A meio caminho do centro, em São Francisco, uma rápida fundeada para um café e um dedinho de prosa, com o Marinho,  um amigo, a quem não via há anos.

Ele mora ali, a cavaleiro do mar!

Bem... vamos seguindo  a nossa  rota, a caminho do paraíso: Ilhabela.

Costeamos a ilha, por longo trecho, até que o enegrecer do horizonte, ao sul, nos diz que é hora de voltar.

Já à tarde, no meio do canal, uma calmaria antipática deixou-nos cozinhando a carcaça sob aquele sol escaldante, que precede as tempestades. O céu enegrecendo mais, no horizonte, e nós ali, impotentes, à espera do que viria.

A tempestade desabou longe de nós, felizmente! Caiu, lá pros lados do continente. O combustível retornou, enfunando a vela e nos conduzindo ao seguro abrigo da Enseada.

Nenhum meio de transporte é mais agradável que uma embarcação à vela. Nenhum rumor a atropelar a conversa. O sussurro do mar e o vento, farfalhando no pano, embalam e musicam a prosa.

A música Divina dando vida à letra da conversa humana. Uma verdadeira parceria entre o homem e o Criador.

 

Carlos Gama.   14 de janeiro de 2000.

Esta foto, foi tirada pelo autor do texto, na "Praia Deserta", tendo como fundo: Ilhabela.