Depois das Pipocas


Depois daquela bem sucedida empreitada, com o carrinho de pipocas - sucesso comercial, naturalmente! - o nosso amigo deixou de lado a caçada à ex-namorada e enveredou por outros caminhos, atrás de novas aventuras amorosas.
Os meses se passaram e ele nem mais se preocupou em prestar atenção à casa dela. Passava por ali, vez por outra, sem nunca se deter ou procurar olhar para o local onde morara seu amor da juventude.
Um certo dia, porém, ao passar por seu antigo carrinho de pipocas, resolveu fazer uma parada e rever o local onde fizera boas amizades com a garotada que freqüentava o ponto. 
Hoje, provavelmente, seria chamado de "point". 
O dono ainda era o mesmo, a quem ele vendera seu material e o direito sobre o uso do local. Ficaram batendo papo - ele sentado no banquinho do pipoqueiro - enquanto se deliciava comendo pipocas.
Um automóvel que acabara de passar, chama-lhe a atenção. Um bonito e moderno exemplar importado. Porém, o que lhe chamou a atenção não foi o veículo em si, mas a pessoa que o conduzia. 
Sim, ela mesma!
O coração dispara e as promessas de não mais procurá-la, que fizera a si mesmo, se desvanecem. Sabe que não pode voltar a alugar o ponto e o carrinho e, muito menos, pode abordá-la diretamente.
Alonga-se, na estada, matutando, observando os arredores e vislumbrando possibilidades.
Sorri, satisfeito, ao perceber uma alternativa excelente ali, num pequeno edifício, em obras, bem defronte à casa dela.
Anota os dados da empreiteira, que constavam da placa, na obra e, no dia seguinte ele procura contato com o dono da firma. Pretende uma vaga como operário, naquela obra específica.
Naturalmente, ele não consegue o emprego. De que forma convencer o empreiteiro, com aquela boa aparência. Como provar, que é capaz de executar algum serviço braçal?
Por fim, usando da influência de um amigo que é fiscal de obras, consegue um lugar, como ajudante de pintor. E, na mesma tarde é apresentado ao encarregado da obra.
Fica acertado que se apresentará ao trabalho, no dia seguinte às sete horas.
Conforme o combinado, ele lá está, na manhã seguinte. Mas, nem o cumprimento do horário pré-determinado, lhe angaria a simpatia do "feitor". 
Com tanto operário precisando daquele emprego e, lá vem um "almofadinha", apadrinhado do fiscal, para ocupar a vaga. Se ele pensa que vai ter moleza, que vai ficar aqui, de pés plantados no chão, está é muito enganado - pensa o encarregado.
Com isso, decide escalá-lo para pintar a fachada do edifício, começando pelo quinto andar.
Encolhido e medroso, lá vai o Magrão, pendurado, com cinto de segurança e tudo. O andaime pende do telhado e é nele que está aboletado o nosso herói, pronto para o trabalho e, somente para isso, pois sequer tem coragem para observar a casa em frente.
Abraçado ao cabo que sustém o rolo de pintura, ele tenta demonstrar que pode executar o serviço e, assim, vai se acalmando. 
Mais confiante, ele já se arrisca a algumas rápidas olhadas para o seu alvo. Mas, vai chegando a hora do almoço e, nada que demonstre haver alguém na casa.
Foi só pensar nisso e, ei-la que chega, naquele seu andar suave - balançando levemente os quadris - que ele acompanha embevecido com o olhar de juventude.
Quando ela curva o corpo, para abrir o portão, o coração do Magrão se acelera e ele se descontrola, caindo fora do pequeno patamar que o sustenta. Com isso, foi pelos ares o rolo, o latão de tinta e outros apetrechos.
Ainda bem que não havia ninguém ali embaixo. Pois, se fosse atingido, estaria morto.
O Magrão?
Esse ficou pendurado pelo cinto de segurança, aos berros e pedidos de ajuda, até ser socorrido pelos bombeiros.
Salvaram-lhe a vida mas não livraram-no da vergonha.
Desta vez, eu creio que foi a última tentativa.

 


Carlos Gama. "www.suacara.com

 

30 de março de 2002 – 00:52 h

 

 

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