Dos Males da Malícia

 

Fazia tempo que o personagem andava esquecido, meio silencioso, escondido e, tudo isso por causa de mudanças, muito mais que por falta de vontade.

E por falar em mudanças, esse tipo de coisa bota a vida de pernas para o ar, e ocupa todo o tempo do animal migratório. É um tal de arruma, que arruma, que não tem mais fim.

A esse tempo já fez amizade com os vizinhos; de um lado uma velhinha muito doce, do outro, um simpático casal de meia idade que, até agora  não entende porque, não fala mais com ele.

O Magrão tem esse jeito cativante, que conquista as pessoas com a maior facilidade e dá ao relacionamento ares de velha amizade. Apesar de que, isso algumas vezes, talvez provoque más interpretações.

Com as tralhas mais ou menos ajeitadas, o operoso novo vizinho parte para as arrumações externas e resolve, então, construir um arco para sustentar as primaveras por sobre o portão mais largo (o de entrada de automóvel).

Fazia anos que ele não punha as mãos na máquina de solda e resolveu ver se ainda sabia como usá-la, pegou a barra de ferro que comprara na véspera, a serra de ferro (daquelas em arco, com lâmina amarela) e pôs mãos à obra.

Depois de ter duas peças do mesmo comprimento – uns dois metros e meio cada uma – furou as colunas do muro, duas vezes de cada lado, e ali fincou as pontas dos ferros. Agora eram dois arcos paralelos que precisavam ser unidos em alguns pontos, e é nessa hora que entra em cena a máquina de solda.

Desligado como sempre, o Magrão ligou a máquina, fixou a primeira pequena travessa e, sem preocupar-se com as luvas, começou o trabalho de uni-las.

Os eletrodos (aquelas varetas que são usadas na solda) estavam úmidos, depois de anos sem uso. Ele descobriu isso por dois caminhos, em primeiro lugar ao ver a cara de um, ainda jovem, Maradona estampada no jornal que embrulhava o material e, depois, ao sentir na pele os primeiros respingos de solda. O primeiro deles caiu sobre o anel de prata que estava no anular direito, fazendo com que o pequeno adorno se colasse à pele, o segundo caiu sobre o tênis, sem maiores conseqüências. Foi aí que ele resolveu parar o trabalho e cuidar do dedo.

Curativo feito, ele retirou os arcos das colunas e os colocou no chão, para facilitar o trabalho.

Agora, prevenido, ele resolveu usar as luvas "de raspa de couro" e defender as mãos.

Mal recomeça o trabalho, agachado, ele tem o enorme desprazer de descobrir que estava sem cuecas por debaixo do short. Quem lhe lembrou isso foi um outro pingo de solda.

Aí, desesperado, segurando as pelancas, ele (gritando e saltitando) pede à vizinha que vem chegando:

-Sopra! Sopra!

 

Carlos Gama. "www.suacara.com

08 de fevereiro de 2004 – 11:28 h

 

 

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