Fanchonices de Um Surdo-Mudo

 

O Lauro é “uma peça”! Uma raridade digna de museu. É completamente surdo mas fala mais que a boca. É o empregado do sindicato, encarregado da limpeza e de fazer o café.

Chega cedo e enfrenta o trabalho com galhardia. Mantém bem limpa, sempre, toda a área sob seu comando.

Dia destes estava lá, com meu filho e ele veio se aproximando, procurando encontrar uma deixa para contar a sua história. E ele sempre tem uma!

Tinha pegado, na véspera, um ônibus para ir para casa. Cansado que só, encontrou um lugarzinho e se acomodou. Encostou a mochilinha junto ao vidro, apoiou a cabeça e pegou no sono.

Nem mesmo os solavancos, pelas ruas esburacadas, conseguem fazê-lo despertar. Mas, àqueles roncos fortes, abafados e furiosos, não há sono que resista.

Ele abre os olhos, ainda meio extremunhante e dá de cara com aquela cena dantesca: duas mulheres e um homem, gesticulando enfurecidos, como se fossem engolir um ao outro, loucos e descontrolados, emitiam aqueles sons roucos e assustadores.

Eram três surdos-mudos, em véspera de se engalfinharem e os passageiros aterrados com toda aquela fúria e, sem saberem o que se passava.

O Lauro foi prestando a atenção, afinal, como surdo, ele conhece, também, a linguagem dos sinais.

Já começa a ficar com aquele ar de riso contido, malicioso e vai chamando a atenção dos outros passageiros, que não conseguem entender nadinha daquilo.

O Lauro estava dormindo e não assistiu ao começo da cena, quando a baixinha, mais gorda entrou no ônibus e deu de cara com o casalzinho abraçado.

A medida que vai entendendo alguma coisa, no meio daquele gesticular furioso, seus ares de riso, vão aumentando e passa ele a ser, também, parte daquele cenário principal.

É através de suas expressões, que o pessoal vai adivinhando o desenrolar dos acontecimentos.

Já olham mais para ele que para os próprios contendores.

Afinal de contas...o baixinho era  marido da gordinha e, pelo jeito, andava plantando na outra “mudinha”!

 

Carlos Gama www.suacara.com

28/3/2001-02,20 h