Edições Anteriores - Meu Recanto


Poema

Velório

Legado Aos Meus Filhos

O Porto Sobrevive.

Seu João "Benzedor"

Não Muito; Alguém

Algumas Décadas

Paquera

Muita Realidade

Ao Menos Um Sorriso

Histórias do Perequê

Falando de Obras

Um Estranho Sorriso

Santos, Porto,

Meu Amorzinho

Peripécias do Advogado do Diabo (fase I)

Adivinha !

Peripécias do Advogado do Diabo (fase II)

Mestre

Visões Distorcidas do Corporativismo

Tartaruga  









 

 

 

 

Paquera ?

É madrugada! Horário dos boêmios, artistas, prostitutas, cafetões e jornalistas.
Ele saiu da redação cansado, com intenção de cair na cama, nada mais.
Como sempre, bem vestido ! Terno de linho, palheta e bengala; companheiros inseparáveis.
Naquela madrugada paulistana de antigamente, não havia temores. Podia caminhar despreocupadamente, atento apenas às notas de sua melodia preferida. E assim vai ele, divagando, ao som do próprio assobio.
Mas, não há cansaço que resista à mais bela visão da natureza: a mulher.
Esguia, vestida com elegância, chapéu de abas largas, meio de banda; ela vai alguns passos à sua frente.
Ele tem a impressão de haver percebido um relancear de olhos por sobre os ombros.
Será ? - pensa ele.
E acelera o passo.
Ela também.
Terá sido apenas impressão minha ? Ela parece não querer permitir que eu me aproxime - vai ele matutando.
Mas, logo em seguida, um novo olhar de través para desfazer as suas dúvidas.
Ambos mantém o passo e seguem assim por algum tempo, rente ao muro alto.
Apresenta-se um desvão e ela o aproveita.
Já havia lhe ocorrido que ela quisesse, por qualquer motivo, ser discreta. E o aproveitar da reentrância no muro, reforça a impressão.
Talvez casada - conjetura ele.
O coração acelera e com ele o passo. É a emoção da conquista.
Com o coração em ritmo anormal ele chega ao desvão no muro e avança...
À sua frente, apenas o portão de ferro, fechado, do Cemitério da Consolação.

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

Muita Realidade e Um Tanto de Ficção.

Foram anos de sacrifícios, de tempo próprio e de dinheiro dos pais. Pais, economicamente remediados, cujo sonho de ver o filho formado, exigia-lhes pesados sacrifícios. Mas, valia a pena pois o menino era muito dedicado a eles e aos estudos.
Os anos passam ligeiros, em especial para o estudante que, enfim, está formado. Resta o período de residência mas, já não sobrecarrega o orçamento da casa e pode até ajudá-los, pois recebe alguma remuneração, nos plantões de fins de semana, nos pronto socorros de periferia.
Em paralelo, caminha outro filho de família ainda menos abastada. Mas o trabalho conseguido através de concurso, faculta-lhe o acesso à universidade. Engenharia em período integral ele não pode cursar, sem sacrifícios, é claro ! Os anos, para este, transcorrem até mais rápidos. Não lhe sobra tempo para mais nada, além do trabalho e dos estudos. E, por fim, a láurea.
Sonhando melhorar de posição, aplica-se novamente em estudar e consegue ser aprovado para uma função pública.
Nomeado, acaba tendo como companheiro o outro personagem, também aprovado em concurso anterior.
O médico e o engenheiro, agora caminham lado a lado, na mesma repartição pública. Formam uma bela equipe, movidos pelos mesmos princípios e pelos mesmos ideais. Correção no trato das atividades profissionais e dedicação à defesa da saúde e da segurança dos menos favorecidos.
Os anos passam e a amizade se fortalece. Os dois já casados e as famílias também integradas àquela amizade.
Um belo dia, em fiscalização a uma empresa de médio porte, constatam, após um acidente, uma série inumerável de irregularidades nos maquinários e no funcionamento, especialmente, no tocante à segurança.
Agem, como sempre haviam feito, com o merecido rigor. O que lhes causara, não poucas vezes, pequenos contratempos. Mas, em face de sua correção nas atitudes, prevaleceu sempre este fato. E as importunações não foram, nunca, além da necessidade de justificação dos atos.
Desta feita, porém, a coisa foi mais longe.
O dono da empresa punida, era pessoa de relacionamento com figuras de alto escalão na administração pública. Exigia, via chefias dos nossos heróis, que todas as medidas punitivas fossem retiradas e não somente isso. Os relatórios, efetivamente comprometedores às atividades futuras, deveriam ser revistos e alterados. A empresa não poderia ter abalado, especialmente, o seu relacionamento de prestação de serviços com a área pública, pois o sobrefaturamento permitia o pagamento dos dividendos, que sempre garantiram a vitória, nas concorrências para os trabalhos posteriores.
Os dois profissionais, cônscios da justeza dos fatos relatados, recusam, peremptoriamente a injusta e imoral imposição.
Dois dias depois, estavam transferidos do sudeste, onde nasceram e moravam, para o norte do país. Alguns milhares de quilômetros de distância.
Desesperado, o médico, que tinha algumas relações um tanto importantes, conseguidas no exercício da atividade profissional, sai em busca de amparo e acaba conseguindo ajuda. Tem a promessa de manutenção do posto e do local, claro que, sob a condição de revisão e alteração do relatório sobre o funcionamento da empresa infratora, cujo dono interferira em favor de suas transferências.
Sopesados todos os fatores relevantes, desde a família e seus laços com a comunidade, até os hábitos e as ligações familiares, optam os dois, por acabar transigindo na vida profissional, levados pelas necessidades de suas famílias.
Daí em diante, consciência passou a fazer parte de um passado remoto, praticamente esquecido, no tempo e na memória.
Essa é a realidade !
A ficção ?...
Os nomes dos personagens.

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Falando de Obras...

A Cambraia, foi outro dos seres ímpares que acabou por morar lá em casa, no interior. Boa de leite e boa parideira, ela cuidava bem de suas crias. Porém, tinha também os seus momentos. Fugir por baixo de cerca de arame farpado era com ela. E de preferência, nas noites frias, obrigando-nos a levantar para campeá-la.
Nas raras vezes em que fugia durante o dia, era encontrada na sala vendo televisão ou ia "estrumar " sobre o bujão de gás, na área de serviço.
Foi comprada de um conhecido nosso, o seu Pedro ( do Rossi ) que morava a alguns quilômetros lá de casa. Ela nascera naquele sítio e jamais saíra dali. Nunca vira a estrada.
Foi uma luta insana levá-la até o nosso pedaço.
Na saída para a estrada, o filho do vendedor, à cavalo, tentava nos ajudar na difícil tarefa; até que apareceu o Júlio. Este amigo de meu cunhado, é santista. E, já era quarentão, quando resolveu ir morar no interior. Estava por ali, há muito pouco tempo. Parou o carro e resolveu nos ajudar. Apoiou as mãos nos quartos traseiros do animal e tentou empurrá-lo. Nesse mesmo momento a vaca resolve perceber que está com dor de barriga. Imaginem a cara do Júlio. Houve quem dissesse que parecia uma "obra surrealista". Foi tão oportuno o aparte, que até hoje tenho dúvidas se a palavra é mesmo escrita com "esse".
Amarramos o animal (a vaca) pelo cabresto, ao pára-choque do nosso fusquinha mas, não adiantava. Corríamos o risco de vê-lo arrancado, inutilmente. E por falar em fusca, é muito bom lembrar, que a bezerrinha, a Estrela, ia no banco de trás desse mesmo carro. E quando finalmente chegamos em casa, pudemos ver o estado dele.
Enquanto minha mulher acelerava o carro, eu empurrava a teimosa mas, ela nem se abalava. Abria as pernas," fincava as quatro no chão" e quem diz que se movia. Aí, surgiu o Dito, nosso velho amigo, de muitos anos. Amigo mesmo ! Daqueles caras com quem você pode contar, para qualquer situação.
O conheci, quando certa feita eu estava com a perna gessada, depois de um acidente com um machado. E mesmo assim, tolhido, tentava fincar uns moirões de cimento que iriam substituir a velha sustentação da cerca, na frente, em nossa casa. E ele, passando pela estrada, ofereceu-se para ajudar, gratuitamente. Ou melhor, foi ele quem assentou os moirões, alinhou e terminou fazendo a cerca. Acabamos ficando amigos, a partir daí.
Voltando à estrada e à labuta com a Cambraia. O Dito apareceu, pegou no rabo da dita (Com letra minúscula! É bom que se esclareça. Porque conhecemos duas, sem rabo mas, com o mesmo nome) e com uma mordida, fez com que ela desaparecesse, estrada afora, com ele agarrado no apêndice.
Num instante, conseguiu levá-la até a sua nova morada. Através de seus ensinamentos, acabamos aprendendo, dentre outras tantas coisas úteis, como manobrar uma vaca, apenas torcendo o rabo dela para um lado, ou para o outro; como se fora a cana do leme de uma embarcação viva.
Esse nosso amigo era uma figura sui generis. Trabalhador incansável, bem humorado, alegre, respeitador e cheio de conhecimentos úteis que dispunha a dividir com todos. Tinha somente um mau hábito, que me desagradava muito. Uma maldita mania, de usar o pomar como privada.
Ele se agarrava ao tronco de uma árvore e ali agachado, fazia as suas necessidades fisiológicas. Dizia não haver forma mais gostosa de executar aquele "serviço". Eu ficava doido, "espumando como cachorro louco", quando descobria que o Dito tinha "obrado" em meu pomar, "num pé de arve" - como dizia ele.
Mas, o que fazer ?
Era esse o seu único defeito.
Apenas, mais uma obra "surrealista" !

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

  Adivinhe !


Foi sempre assim, ele, geralmente, criava situações que punham os pais em cheque. Fosse dando botinadas nas canelas das visitas ou simplesmente abrindo a boca quando deveria se calar. Era a figura clássica do peralta.
Os pais haviam ganho de seu Maneco, o vizinho português, um par de coelhos para as crianças. Um casal de filhos.
O quintal de terra era um paraíso para os animaizinhos que por ali corriam o dia inteiro, escarafunchando por todos os cantos.
Mas, foram eles cavoucando de tal maneira o quintal, que levaram os donos da casa a quererem livrar-se deles. Ficaram com medo de que a buraqueira feita pelos bichinhos pudesse atingir o armazém de café que ficava ao lado da morada.
Chamaram os filhos, explicando-lhes as razões e a necessidade de se livrarem dos orelhudos. Que não se entristecessem, pois eles estariam bem cuidados e teriam as mesmas atenções que lhes haviam dado até ali. Era muito importante também, que se calassem em relação à doação, especialmente em frente de dona Hermelinda e de seu Maneco.
Estamos entendidos ? Estamos todos de acordo ?
Diante do silêncio, apesar do amuo dos filhos, subentendeu-se a concordância.
Dois dias passados e já é domingo. Ainda pela manhã, recebem a visita de seu Onofre, que viera, além de prosear, em busca dos coelhos que ganhara de presente.
À saída, todos os cuidados. Os coelhos bem acondicionados em uma cesta de bambu, para não dar na vista ao seu Maneco, em qualquer eventualidade. E uma espiadela furtiva por sobre o muro para ver se a barra estava limpa. Confirmada a clareza da situação, seu João faz sinal ao seu Onofre para que venha para o portão. Ali, todos se despedem efusivamente, desejam boa semana, de parte a parte e lá se vai o visitante pela calçada, dando os primeiros passos em retirada. Mas, eis que de surpresa, surge seu Maneco virando a esquina e vindo de encontro a ele. Até aí, apesar da tensão, nada de mais...Se o peralta, o Byron, não chamasse, em altos brados a seu Maneco,
perguntando-lhe :
- Adivinhe, seu Maneco, o que vai naquela cesta ?

.Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

Histórias do Perequê..

Por uma possível necessidade futura, há que se fazer algumas descrições; a começar por meu pai !
De tudo o que não fosse bastante plausível e palpável, descria. Exceções feitas, é claro, a Nossa Senhora e às amizades. E quanta desilusão !
Claro está, que não em relação à Mãe Santíssima.
Mais que as próprias amizades, a grande responsável pelas desilusões é a nossa expectativa.
Bem, viemos aqui para falar do Perequê, dos acontecimentos ali ocorridos e não para filosofar a respeito de "amizades" e desilusões.
A primeira ocorrência, fora dos limites do compreensível é um pouco longa e como já fizemos essas explanações anteriores, é melhor partir para uma ocorrência menos longa para não ocupar muito espaço no papel e na paciência do leitor.
Desta feita, meu pai já estava mais crente (e como !) nas ocorrências possíveis e ainda assim, fora do alcance de nossa parca compreensão.
Havíamos chegado no meio da madrugada. Armada a barraca, arrumados os petrechos; já estávamos fechando os colchetes da morada temporária, quando alguns vultos nos chamaram a atenção.
De pronto, lancei mão da Winchester que nos acompanhava sempre. Mais rápido, porém, meu pai pondera com convicção:
- Deixe meu filho ! No momento esta arma não nos serve de nada.
Saímos da barraca e silenciosamente ficamos a observar o que ocorria.
Sete seres, vestindo túnicas brancas e um outro trajando-se de negro, estavam reunidos no que parecia ser uma cerimônia.
Sete formavam um círculo e no centro, postava-se o outro. Trajavam túnicas que iam até os pés e, também, não se lhes distinguia as feições.
Por várias vezes, alternadamente, subiam a muitos metros de altura e ali pairavam por instantes.
Subiam os componentes do círculo e permanecia no chão, o membro que estava no centro. Depois, subia o que estava no centro e permaneciam em terra os circunstantes.
Após uma sucessão destas ocorrências, subiram os oito simultaneamente e desapareceram no espaço.
Movidos pela curiosidade, nos aproximamos do local onde haviam estado aqueles seres. E ali não havia marca alguma que indicasse a possibilidade de alguém haver pisado naquele sítio. Porém, havia no local, uma caixa de fósforos aberta e intacta, uma vela branca virgem e um charuto, também intocado.
Fora mais uma das muitas experiências que por ali vivenciamos. Mais uma intrigante história para nos furtar o sono daquela noite.
Sono que ia embora, não levado pelo nosso medo mas, por nossa emoção e por nossas conjecturas !



Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

Ao Menos Um Sorriso !

 Era um ônibus da linha 10 e trafegava pela Afonso Pena, já próximo da Siqueira Campos.
Três jovens, esbaforidas, surgiram no canteiro central, tentando tomar aquele veículo sem conseguirem, contudo, atravessar a avenida, no meio do trânsito intenso.
O motorista do coletivo fez sinal, para que esperassem. Queria dizer que atravessassem com cuidado a avenida, que ele esperaria. Seguiu mais uns metros e, no ponto de espera, aguardou-as.
Um pequeno gesto que pode ter evitado uma tragédia !
As jovens embarcaram, sorridentes e alegres, entre si. Ao motorista sequer um "obrigado " ou um sorriso que denotasse o agradecimento.
Também, nada de mais; ele, afinal, não fazia mais que a obrigação !
Algumas paradas adiante, já na avenida Siqueira Campos, algo semelhante.
Um jovem corria pela calçada em direção ao ponto de parada de ônibus. O motorista, no local indicado, sem qualquer pressa, aguardou pelo jovem passageiro que, adentrou o veículo, com cara de poucos amigos.
Novamente a mesma cena; nem sorriso, nem obrigado, muito menos um bom dia.
Talvez sejam as preocupações da vida moderna. Ou, seriam, as despreocupações para com o semelhante ?
Pouco importa ! Certamente não será um sorriso ou um gesto de cortesia que irá reformar o mundo.
Mas, que podem mudar-lhe a face, lá isso podem !

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

A publicação deste texto, nesta época do ano, é uma homenagem àqueles cujo estágio evolutivo lhes permite, através de pequenos atos, colaborar para que a caminhada de seus irmãos seja mais amena. Esta maneira de ser é o resultado da aplicação prática, de parte dos ensinamentos, transmitidos pelo mais conhecido aniversariante destes dois últimos milênios, cuja data de nascimento se comemora neste mês: 

Jesus de Nazaré


Na impossibilidade de nomearmos a todos aqueles exemplos com os quais convivemos no dia a dia,  uma menção especial a alguém a quem não conhecemos pessoalmente mas que, por sua maneira, um tanto incomum, de atender aos seus concidadãos, só contribui para o crescimento da fé em nosso desenvolvimento como seres humanos. Aproveitamos o momento, pois talvez seja única esta oportunidade de demonstrar-lhe nossa gratidão, admiração e respeito; Dona  Ioáia. ( da biblioteca do S.T.J)

 

 

 

 

 

 

 

Santos, Porto, Arte, Manhas...Brasil !


Hoje, quarta, dia de feira; local que sempre evitei freqüentar, por umas poucas razões. Em especial, pelo mal estar e o desassossego, que o movimento, o burburinho sempre me provocaram. Gosto mesmo é de silêncio e tranqüilidade, mesmo que deva ser, na zona urbana.
Mas, o desejo de comer peixe, no almoço, levou-me até à feira. E... quanta surpresa ! Espaço livre para caminhar; presteza excepcional no atendimento, nas bancas quase vazias. Tal a quietação, que me dispus a caminhar por um longo trecho dela, observando o comércio, os produtos e as pessoas em quantidade pequena.
Comprado o que eu queria, vim caminhando bem devagar, prestando atenção às outras pessoas que como eu, dali saíam carregando à mão ou nos carrinhos, pequenas quantidades de compras, ali feitas. 
Estranhando a visão incomum - não ia à feira fazia muito tempo - sentei-me na mureta do canal para observar melhor os transeuntes e poder conjeturar com maior serenidade, sobre o inusitado da ocorrência.
Nunca se sabe qual a razão principal que acaba despertando, na memória, as imagens do passado, seja ele próximo ou remoto, real ou fictício.
Fato é, que rememorei as cenas que estavam armazenadas ali, produto da leitura de obra de Ranulpho Prata : "Navios Iluminados"; onde o autor, médico sensível, narrava a saga de um lutador nordestino e seu esforço hercúleo, para sobreviver e manter a pequena família aqui constituída, com o produto do estafante e mortal trabalho no porto. 
Até que, na miséria, acoimado junto com os seus, em um infecto porão alugado, leva-lhe o corpo à terra e a alma ao Criador, a tísica.
Mas, isso eram lá histórias (passíveis de serem reais), das primeiras décadas e infelizmente, também da última, deste século que ora finda. 
Com o advento do trabalhismo, de legislação protetora dos direitos do operariado, com um sindicalismo forte, de administrações sinceras e honestas, o portuário deixou de ser um mero sobrevivente - quando muito - para adquirir condições de vida digna, para si e para a família. Esse evento trouxe consigo, prosperidade ao comércio e à indústria regionais. 
O portuário passou a trabalhar com mais amor e empenho, em troca desta nova condição de dignidade, o que granjeou para Santos o conceito de um dos portos onde melhor se desempenha o trabalho portuário e marítimo. Mesmo quando comparado com todos os portos mais famosos e mais antigos do mundo. 
E digo isto, ouvido não poucas vezes, da boca de marinheiros estrangeiros, durante trinta anos neste bendito porto de Santos. 
Bendito, sim ! E no melhor de todos os sentidos. Pois foi dele, de sua atividade, que a cidade cresceu e prosperou, assim como por ele, hoje, definha. Nem bem por ele, o que não seria justo. Mas, por aquilo que fizeram dele.
Reconduziram o trabalhador à sua antiga condição de miserabilidade e o produto digno e justo, de sua atividade laborativa, que, circulando sustentava a maior parte da economia da região, ficou concentrado nas mãos de uma minoria e é movimentado hoje, sabe-se lá onde !
O grupo familiar, concessionário da exploração do Porto de Santos, por quase um século, continuou enriquecendo, mesmo após a melhora das condições de ganho de seus trabalhadores. Enriquecendo sempre, pagando bem, em dia e reinvestindo boa parte de seus lucros na manutenção e na modernização do porto e de seu aparelhamento.
Terminado o período de concessão da exploração da atividade portuária - como só poderia acontecer - o governo chamou a si a atividade transformando, em tempo recorde, o Porto de Santos nos cacos propositais, que vai aos poucos presenteando a grupos privados, subsidiando-lhes a aquisição fácil e o seu reaparelhamento.
De estranho, nisto tudo, somente o fato de haverem respeitado os prazos de concessão. O que não ocorreu com a Light; retomada ao custo de altíssimas multas contratuais, seis meses antes de expirar o prazo de concessão.
Ocorrências nada estranháveis, nestes últimos quinhentos anos deste mesmo tipo de administração pública !
Desperto, enfim, desta longa divagação. Levanto e fazendo o caminho de volta da feira até em casa, vou ainda observando o resultado destes tristes fatos, aqui lembrados. Fatos reais, criados em um longo trabalho de sapa e de artimanhas, engendradas com muita colaboração anônima.
Pessoas cabisbaixas, ombros caídos, muros pichados, calçadas esburacadas, portas comerciais cerradas e... vai meu ânimo também, ficando um tanto alquebrado, como estas outras almas penadas, que por aqui vagueiam.
E realista, me indago: 
"Até quando teremos água ? 
Até quando resistirão nossas florestas, cada vez mais ( legalmente ) devastadas ?
Até quando continuará se propagando o desmando para com o patrimônio público ? 
Até quando, permitiremos que esse desmando se propague em ondas crescentes, caminhando no vácuo criado por nosso silêncio covarde ou
ganancioso ?
Até quando ? "
Que tristeza ! Só me responde o silêncio.

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

Um Estranho Sorriso. 



Era um sorriso estranho, diferente; não se saberia dizer se era uma expressão de simpatia ou puramente uma demonstração de escárnio.
Ele surgiu pelo pedaço, vindo não se sabe de onde. E mesmo com aquele sorriso que não se conseguiria definir, era muito simpático. Jamais teve alguma atitude que pudesse ser classificada como agressiva.
Era daquele tipo furão, muito comum entre os jovens das décadas de sessenta e setenta. Aquele que chegava em qualquer festa ou comemoração, sem ter sido convidado e sem conhecer ninguém. Mas, que pela forma simpática de se chegar às pessoas, como se fosse velho conhecido, acabava sendo aceito, mesmo por aqueles que conseguiam perceber sua condição. E, é claro, só aparecia nas festas e nas comuns churrascadas que aconteciam nas temporadas, ali naquela colônia de férias.
Surgia, vindo do nada, participava da comilança e desaparecia, como tinha chegado; sem que se percebesse. Como ninguém o conhecia, nem a sua origem; em razão do sorriso, apelidaram-no de "Sílvio Santos". Passou a fazer parte das festas, como se fosse alguém do grupo. Terminada a temporada, reduzido o movimento que lhe permitia transitar tranqüilo, ele desaparecia, só retornando alguns meses depois, no início de outro período de férias escolares.
Até que, certo dia, surgiu lá por casa e, num descuido nosso, acabou, depois de um ligeiríssimo namoro, engravidando a Suzi. 
Foi um alvoroço, olha de cá, olha de lá e nada de descobrir como conseguira estar a sós com ela. Até que, em uma outra investida dele, descobrimos que pulava a janela da área de serviço. Apesar da pequena estatura, do corpo forte e pesado, das pernas muito curtas, ele demonstrava bastante agilidade. Nada mais restava a fazer, senão aceitar a situação. Afinal, a cadela estava de "bucho cheio" e ademais, convenhamos, o cachorro era uma simpatia. Tinha aquele "sorriso" incomum, cativante, que acabou sendo o nome que lhe demos, daí em diante. Veio a filharada; a maioria puxou por ele, na cor branca com malhas marron-claras.
Chegadas as férias escolares, ele reaparecia na colônia e por ali ficava, até que o ano letivo recomeçasse e o pessoal fosse embora. Aí, então, ele ia lá para nossa casa e permanecia, até as próximas férias. 
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.Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

Meu Amorzinho !

 

 

O cara era um tremendo boa pinta. Insinuante, simpático e muito bem de vida; mas, era casado.

Porém, os atributos financeiros só apareceram depois de ele estar preso ao compromisso matrimonial. E, vai daí, começam a surgir as facilidades maiores para as paqueras.

As moças, mais liberadas; algumas até, preferindo alguém compromissado, que não pegue no pé. Ele por sua vez, de automóvel novo, dinheiro no bolso e disposição para aproveitar o que a vida não lhe oferecera antes.

Eram tantas as oportunidades e as saídas furtivas, que optou ele, por ter um local próprio para tais momentos.

Tratou, então, de alugar um apartamento. Procura de cá, procura de lá, acabou decidindo-se por um local um pouco mais afastado, freqüentado em sua maioria por veranistas, a Praia Grande. Decidida a região, começa a busca pelas imobiliárias e nos classificados de jornais. E foi por este último caminho, que ele acaba encontrando o local ideal. Recorta o pequeno classificado e vai em busca de seu ninho.

Um pequeno apartamento, em um discreto edifício, frente ao mar. Um sonho, um primor, que ele vai aos poucos decorando e deixando a seu gosto.

Namoradiças  vão e vêm, naquele apartamento. São da cidade, das vizinhanças mas,  a maioria, veranistas ou de fins de semana. Ele não assume compromissos com ninguém, põe as cartas na mesa; joga limpo.

Sábado à tarde, no verão de calor intenso, eles vão juntos para o chuveiro. Até que a campainha interrompe o idílio aquático. Ele então, em condições inadequadas para atender à porta, pede a ela que o faça, mesmo um tanto constrangido. Passa o chuveiro para "frio" e vai se acalmando mas, vai também ficando impaciente com a demora. Resolve então, enrolado em uma toalha, ir verificar o que acontece. Saindo do banheiro, se antecipa e vai perguntando: "Meu Amorzinho  ! Quem está aí ? "

- Somos nós, seu canalha ! Dizem em uníssono, a sogra e a mulher.

 

  Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Visões Distorcidas do Corporativismo:

cegueira ou burrice ?

Talvez haja caído em desuso. Mas, era hábito das gerações passadas, fazer uso de provérbios para lembrar situações comuns. Um deles e que se aplica com justeza ao assunto abordado, era aquele que dizia : " O pior cego é aquele que não quer ver ".
As corporações são (ou deveriam ser) entidades que agrupam indivíduos sujeitos às mesmas regras e aos mesmos estatutos.
Quando surgem falhas no comportamento de algum de seus membros, sem exceções, estas entidades representativas
- através de seus Conselhos de Ética e Disciplina -
acabam por tentar ocultá-las ou eximem-se da responsabilidade de aplicar as punições cabíveis e previstas nas normas reguladoras de suas atividades. Agem assim, como se o protecionismo, indevidamente, concedido ao profissional em falta, pudesse preservar todo o grupo de ser conspurcado com a lama atirada pelo culpado ou, então, conseguisse livrá-lo da má impressão e da maledicência da opinião pública.
Embora teimem em não querer ver a realidade, saibam
(eles sabem !) os senhores dirigentes e presidentes de conselhos de ética, que tal atitude acaba denegrindo o conceito de todo um grupo, de toda uma corporação, de toda uma categoria.
As faltas deveriam ser apuradas com todo o rigor e isenção. E as punições previstas nas normas, nas regras e estatutos (públicos ou privados) deveriam ser aplicadas de forma justa e inequívoca, em defesa da integridade moral de todo o universo de seus componentes.
Assim agindo, jamais voltariam a ouvir frases que mencionassem a venalidade dos políticos, a corrupção nos meios policiais,
a má-fé dos advogados, a irresponsabilidade dos médicos ou outro termo que pudesse macular qualquer entidade ou grupo, simplesmente por culpa de uma minoria de maus profissionais e de uma maioria de representantes estrábicos.

Em se tratando de conselhos de ética,
o maior problema é a ausência dela.

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Este texto foi originariamente escrito e voltado à admoestação ao Conselho de Ética e Disciplina da O.A.B.S.P.
Mais adiante, revisto e tendo alterada a parte mais cáustica de seu conteúdo, o autor percebeu que ele se aplicava com a devida justeza, à maioria ou à totalidade dos Conselhos de Ética e Disciplina de qualquer classe de atividade ou grupo de profissionais.
Depois de passar por uma pequena e magistral incisão em seu conteúdo, feita pela redação do centenário jornal
A Tribuna, da cidade de Santos,
foi o texto publicado naquele diário.

Volta, agora, a ser divulgado com o intuito de alertar aqueles que prezam e respeitam sua atividade laborativa, sobre a necessidade de estarem bem representados.

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto

 

 

 

 

 

 

 

Tartaruga.

Michelangelo Antônio

( Tatá ou Michelônio )

 

  Dia destes, assistindo  a uma entrevista televisiva feita com minha prima Dinoca, observei, passando lá no fundo, em terceiro plano, seu Michelangelo levado pela empregada, em uma cadeira de rodas.

Típico italiano, brincalhão nas horas certas ou escandaloso, se devesse admoestar alguém. E por mais que eu o respeite, não posso deixar de descrever a típica figura: baixinho, alegre, brincalhão, meio encurvado, quase sem pescoço; usando, sempre, paletó e um boné, daqueles antigos, de lã. Assemelha-se tanto, que qualquer menção à tartaruga, todos vão, instintivamente olhar para ele, mesmo que não o conheçam.

Para o pessoal antigo, era Michelangelo ou tartaruga. O apelido, só pelas costas. Depois que nós entramos no cais...quando digo nós, refiro-me à ultima turma concursada pela Capitania dos Portos, em 73.

Depois que essa molecada chegou, a coisa ficou pior. Alguns, carinhosamente, já o chamavam de "seu tatá", outros mais sacanas apelidaram-no de  "michelônio".

E ele, fingindo zanga, dava margem a novas brincadeiras. Até porque, percebia o carinho e a simpatia que todos sempre tiveram e têm por ele.

Não foram poucas as vezes em que me torci, a ponto de ter que sentar-me com dores no abdômen, de tanto rir.

O Lula já se foi desta, faz bastante tempo. Mas, sua fisionomia de travesso, ficou para sempre gravada em minha retina; era também da antiga o Lucivon. Bastava apenas  o seu Michelangelo estar dando sopa por perto que  ele fingia não tê-lo visto e vinha se achegando, mãos nos meus ombros e já começava aquela ladainha:

-Gama, você sabe que eu gosto muito de você, por isso gostaria de convidá-lo para jantar lá em casa, hoje. Minha patroa preparou uma sopa de tartaruga...

-É...  aproveita e leva a mãezinha do Lula junto com você. Aquela... - dizia o seu Michelangelo, fingindo uma fúria inexistente.

De outra feita, foi uma brincadeira do Vitor. Mas, desta vez o velhote ficou na ponta das patinhas, com dedo em riste e esbravejava de verdade. Era tanta a fúria, que todos tiveram a impressão de que os dois tinham a mesma altura. Seu Michelangelo com seu metro e sessenta e o Vitor, com seu metro e noventa e tantos, quase dois.

O Vitor, também já partido desta, era filho de um velho amigo de seu Tatá e tinha por ele, carinho especial. Viviam brincando, apesar da diferença de idade.

No cais havia guaritas, para se guardar a "papelada" pertencente à nossa atividade profissional. E foi dentro de uma destas que seu Tatá colocou o paletó, na hora do sol mais forte.

Tendo já, uma segunda intenção, o Vitor surrupiou o agasalho.

No dia seguinte, estando ainda a turma no mesmo trecho de cais, o Vitor disse a ele, que vira seu paletó em uma outra guarita ali perto. E lá se foi ele, naquele passinho miúdo, em busca de seu agasalho.

Voltou de lá, enraivecido, quase espumando, trazendo nas mãos e atirando sobre o Vitor, aquele casco de tartaruga que o amigo, ali "plantara".

Bem mais antigo, do tempo que nós éramos apenas os meninos da última turma, foi aquele episódio em que faltou gente para completar o trabalho em nossa seção, ali no Valongo. Chamaram por telefone, de outras seções, e um dos que viria era o seu Michelangelo.

Quando o pessoal soube, ninguém arredou pé.

Que se saiba, ele nunca dirigiu; então, sempre, através dos anos algum de nós mais novos o levava e trazia de automóvel para todos os lados. Porém, os veículos particulares não entravam na faixa do porto; daí, transcorrido algum tempo, surge ao longe, caminhando pela beira do cais, o profissional emprestado.

Foi todo  mundo para a beira d'água espreitar. Assim ficaram todos, olhando para o mar. Ora se fixavam em um local mais distante para, logo depois, mudarem a direção da observação para um ponto mais próximo. Seu Tatá chega e se engloba ao grupo de observadores, que neste momento já remonta a algumas dezenas de trabalhadores,  previamente orientados a respeito.

O grupo continua perscrutando o mar,  sem que ninguém sequer olhe para ele que, por fim, impaciente, pergunta :

- Afinal, o que foi que aconteceu ?

Viram-se todos, de pronto,  e perguntam:

- Estávamos esperando você; por onde é que veio ?

Imaginem  vocês as respostas !

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto

 

 

 

 

 

 

O Porto Sobrevive.

 

Descobri numa madrugada destas, pelo computador, um som que lembra muito o som dos navios e dos rebocadores, naquelas noites distantes em que seu Nabor e eu ficávamos esperando que o companheiro largasse os cabos, levando a bordo, pedaços de nossos corações.
Como se pequenas partes de nós, partissem junto com aqueles nossos amigos estrangeiros. Assim também, quando eles voltavam, era como se revíssemos pedacinhos de nós. Às vezes, muitos meses ou anos, depois. Mas, sempre lembrados, como ainda hoje o são, todos eles.
Muitos, já em viagem  sem volta, como o saudoso seu Nabor.
Figura doce, de agradável lembrança, este meu idoso amigo e companheiro. Parceiro naquelas despedidas matinais, geralmente ocorridas poucas horas antes de sermos brindados pela presença do sol, confirmando o dia.
Companhia constante, também, à mesa do jantar nos navios da saudosa "Società  Italia". Dotado de uma impassibilidade ímpar, era ele quem cuidava de toda a documentação da carga e dos tripulantes. Atos a serem concluídos, somente à última hora, na certeza da partida. E ele jamais (que eu tenha presenciado, em muitos anos de convivência) teve qualquer alteração em sua tranqüilidade.  A mesma placidez com que, calmamente, mastigava um pedaço de carne ou polvo, entre aquelas rijas gengivas.
Essa calma era uma desculpa interessante, para que todos os que não estivessem de serviço, ali se mantivessem à mesa, naquela "chiacchieràta" como diriam meus amigos italianos; "a pretèsto di fàre compagnia  a Nabor".
Ali ficávamos nós, saboreando o vinho, a pequenos goles; fazendo-lhe companhia e usufruindo  daquela sábia, simpática e inesquecível figura.
Depois, a espera pela partida, já de madrugada.
Invariavelmente, neste momento de partida de navios cargueiros, eram muito poucas as pessoas presentes, em  contraste com o momento da chegada, que era sempre festivo e acompanhado por uma multidão.  Em geral, trabalhadores que ali estavam à espera da atracação de seu local de trabalho. Hoje, o que se vê, é um cais povoado de fantasmas. Fantasmas de trabalhadores ainda vivos e fantasmas de navios ainda em trânsito, porém,  ausentes daqui.
Aquelas presenças constantes ficaram apenas na memória daqueles que ali conviveram.
Santos definha, mas, o porto sobrevive... como palco de lembranças.

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Peripécias do Advogado do Diabo (fase I)

 

 

Comecemos pelo apelido. Fez jus a ele, depois de ter defendido um amigo que vinha sofrendo um processo crime, por ter atropelado algumas pessoas junto a um ponto de ônibus, com agravante de estar embriagado naquela madrugada, também.

O defensor, apesar de andar afastado dos tribunais, era profissional brilhante, culto, dotado de uma secura proposital e uma aparente agressividade que colocava a todos na defensiva e lhe propiciava a vantagem do ataque inicial.

Estes fatores mais a sólida instrução, a brilhante oratória e muita vivência anterior nos meios jurídicos fizeram com que prevalecesse a injustiça e o infrator acabasse sendo absolvido.

Certa feita, sai o advogado dirigindo o automóvel e lá vai, distraído, sem documentos, cantarolando a caminho do trabalho no porto.

Começa a anoitecer e um farol insistente o incomoda,  pelo espelho retrovisor. Tentando livrar-se do inoportuno, ele acelera  seu carro, mas, o outro o acompanha. Ele diminui a velocidade para  que o incômodo motorista o ultrapasse e vá... cuidar da vida. Mas, o outro insiste em ficar   perturbando.

Ele vai, aos poucos, azedando o seu humor, já não muito fácil, até que - pensa ele (carregando nos erres finais): “Esse cara vai se foderrrrr” (ele carregava nos erres finais, quando falava, pressupõe-se que também o fizesse enquanto pensava).

Assim pensando, depois daqueles cinco erre, ele acelera o carro e o outro o acompanha, indiferente às suas malévolas intenções.

Vou foderrr a traseira do meu carro, mas, fodo também, toda a frente do carro deste idiota. Assim agiu, pisando fundo no breque e provocando violenta colisão.

-Filha da puta! Dois carros fodidos, por causa dos documentos. Tinha, a vaca da minha molherrrrr que virrr atrás de mim?

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Peripécias do Advogado do Diabo (fase II)

 

 

Bem...agora que vocês já conhecem o endiabrado personagem principal, podemos começar diretamente pela raiz desta história.

O personagem secundário chamava-se “Bebê Chorão”.

É verdade! Sempre tratados pelos apelidos. A única forma de serem tratadas as pessoas na beira do cais, era pelos apelidos.

Bem, o “Bebê Chorão”  ganhou o apelido em razão de ser “um nada me chega”, daqueles que vivem a vida a se lamentar, querendo sempre um pouco mais. Dizem até, que à beira do túmulo da mãe, despediu-se dela, acenando com a destra fechada.

Tirava proveito de qualquer oportunidade que surgisse, até uma carona forçada, para economizar na passagem do ônibus. O carro ficava na garagem, como enfeite.

Todos os dias, ele esperava pela carona do Advogado do Diabo. E por direito, será ele quem fará a narrativa, daqui por diante.

-Era só eu virar a chave na fechadura e ele também o fazia. Tenho a impressão de que ficava ali, de ouvido colado, esperando que minha chave fizesse “treeeec” e lá vinha ele abrindo a porta de seu apartamento, fazendo “troooc”.

-Bom dia! - dizia o filho da puta, todas as manhãs - Posso aproveitar, já que vamos para o mesmo lado?

-E o idiota aqui, sem jeito de negar, acabava acedendo e levando o cafetão.

Os meses transcorrem, os anos vão passando e todos os dias a mesma história. Mas, o cara era meu vizinho, colega de turma, simpático e sem vergonha. O que fazer?

Mas, chega um dia que o saco enche. Ora, porra! Não comi a mãe dele, portanto, não é meu filho; que vá foderrrr outro. Mas, vou livrar-me, sem inimizades.

Já que vou dar uma ferrada nele, vai ser para deixar-lhe o rabo ardendo.

Fiquei esperando o momento mais propício. Um daqueles que ele jamais esquecesse. Naquele dia, o trabalho que iria lhe tocar, era para encher a burra. Livrar a cara do mês inteiro.

Amanhece o dia e eu espero, até o último momento e o cara não se anima a sair para o trabalho. Espero, até que não dê mais tempo, nem de chamar um táxi. Pronto!  Ele ouve a chave fazendo “treeeec” na fechadura da porta lá de casa. “Troooc”, ouço fazer a chave na fechadura do apartamento do “unha de fome”.

Faço, novamente “treeec” fechando a porta e indo para a cama dormir. Ou melhor,...indo para a cama gozar o prazer de imaginar a cara do “filho... da... puta...” chorando o dinheiro que deixara de ganhar por ser miserável.

Nun ca mais o ca na lha pe diu ca ro na! 

 

 Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mestre

 

Soube hoje e estava me preparando para a despedida formal de sétimo dia.

Frente ao espelho cortava a barba, pensando, relembrando São Vicente; sempre, parte tão importante desta minha passagem.

Vou olhando meus cabelos, todos brancos. Minha pele, toda sulcos, toda tempo. Tempo que passa e que marca. Marca profundo no corpo, na alma a passagem neste mundo.

A despedida no templo é mais um ato social. Seu filho, aquele a quem chamávamos pelo diminutivo da forma de tratamento dada ao pai e que foi meu companheiro de classe; já não o reconheceria, depois desses trinta e muitos anos passados. Mal reconheço a mim nesta figura envelhecida.

Sua filha, professor, eu a vi somente naquela tarde, no ano passado quando fui visitá-lo em casa dela. Um vulto furtivo e respeitoso, que deixou a sós o pai e seu velho aluno em momentos de recordações.

Farei então, meu amigo, a minha prece de despedida no templo maior da Divindade. Sob o céu triste e enegrecido que, travestido em luto, se despede com essa salva de trovões e estas copiosas lágrimas tamborilando no zinco do telhado.

Os pés descalços; compor-me-ei com a natureza e se lágrimas houver que derramar serão puramente de alegria e, um tanto, de egoísticas saudades; revendo o rosto amigo, a fala mansa e conselheira, companheira de meus caminhos pedregosos e escorregadios de uma juventude, só, em terra estranha.

Cumprida esta etapa a essência vai habitar templo maior; não só limites.

Sois agora, mestre, apenas luz.

 

A homenagem simples, mas sincera a um professor que, como tal, foi coadjutor da formação do caráter e da cultura. Este, porém, foi para mim muito mais. Foi um amigo e quase um pai em momento em que esta presença se fazia necessária. Professor Antonio Borges da Fonseca: minha eterna gratidão e, até mais ver!

 

Carlos Delphim Nogueira da Gama Neto.

 

 

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