Inacreditável, Porém, Verdade.

 

 

Parece inacreditável que possamos encontrar um nobre, perdido em um cantinho de um asilo. Mas é possível, sim!

Existem dias, quando nos encontramos saturados de notícias lúgubres, violência constante e crescente, falta de perspectiva em relação ao futuro e outras tantas mazelas, já não queremos mais saber do lugar comum, de gente comum, fria, vazia, sem ambições, sem objetivos. Daí, num momento de rara felicidade, conhece-se uma pessoa diferente da média. Um ser um tanto incomum, nos dias de hoje. Cada vez mais, impera o crescimento do individualismo e da ganância desmedidos.

Aparecem por lá, faz um pouco mais de um mês. As energias positivas de qualquer ser vivo, nos aproximam dele, instintivamente. Passei a cumprimentar esses novos visitantes, com simpatia. Seu visitado, um senhor com idade, provavelmente, próxima dos sessenta, mas, um tanto alquebrado pelos embates da vida e um aspecto de alcoolismo já passado. As pernas, arroxeadas e erisipelosas, hoje, cobertas por gases muito alvas, denotando o cuidado dispensado. O visitante aparece todos os domingos para ver o amigo ou parente. Pouco conversam mas, a presença já é um grande alento.

Ia longe o nosso papo agradável. Estávamos absortos, meu amigo Raimundo e eu, quando se achega aquele personagem, conhecido de vista, mas, tão comum ou mais até, do que nós dois. Ouvira a nossa conversa a respeito de política e se aproxima, puxando prosa. Escreve em rimas e começou a cantá-las. Muito boas, por sinal!

Anda à cata de alguém que musique estas composições, poéticas, satíricas ou até eróticas. Justifica-se ele em relação às últimas: “é disso que o povo gosta! A maioria deixa de lado muita coisa boa, em troca de porcaria”.

Hoje, como estava  desacompanhado da mulher, puxa de uma banqueta, senta-se ao nosso lado e resolve, com lágrimas nos olhos, ir contando um pouco da vida.

Nasceu na Paraíba, onde viveu seus primeiros dezoito anos. Partiu, então, para Pernambuco e por lá ficou, os próximos trinta. Casado, casa própria, um comérciozinho e vai a vida fluindo sem mais senões. Até que, um dia, a moeda nova, a inexperiência e a crescente concorrência, vão fazendo com que seu barco comece a fazer água. E assim vai... até naufragar.

Foi por esse caminho que chegaram a Santos, faz quatro anos.

Ele trabalhando como frentista em posto de gasolina e ela, como faxineira de banco.

A vida ensinou-lhe, depois do “tombo”, a apreciar ainda mais o caráter, o espírito de luta e o companheirismo da mulher.

Moram em uma favela. Mal e mal acomodados, felizes e cheios de amigos. A primeira lição que aprenderam neste local foi: solidariedade.

A mesma solidariedade que ele empregou na luta para conseguir uma vaga para internar aquele cansado e doente morador de rua, que conheceu, abandonado e dormitando os desvãos próximos de seu local de trabalho, naquelas noites solitárias e saudosas da mulher que o esperava em seu barraco. O mesmo ser, seu irmão, a quem ele visita todos os domingos, aproveitando a folga no trabalho.

Nobre sujeito, de quem, nem mesmo o nome sabe o seu protegido.

 

Carlos Gama