Menos Um

 

O Thomé era jogador de tamboréu e fabricante dos petrechos para a prática desse esporte tão difundido hoje em dia.

No domingo passado ele apareceu lá pelo nosso clube e ficou batendo um longo papo. Estava bem disposto e alegre mas, soube hoje, que ele esticou as canelas naquela tarde.

Sorte dele partir assim, desta forma tão privilegiada, sem sofrimentos e sem expectativas.

Mas, como o nosso clube está mais para circo do que outra coisa, a notícia só gerou brincadeira.
Afinal, tristeza não vai trazê-lo de volta!

O Birosca, amigo do Magrão, logo lembrou uma passagem interessante, havida entre este último e o falecido, faz alguns anos.

O Thomé era daquele tipo que gostava de tirar um “sarrinho” nos outros mas, quando a coisa era com ele, ficava mal humorado. Naquele dia resolveu meter a mão no bolso do Magrão e pegar uma nota de dez, com a qual saiu pagando refrigerantes para todos. Se pensou em agitar o nosso personagem enganou-se, redondamente, pois ele nem piscou. Logo depois, vendo que a brincadeira não surtira o efeito desejado ele devolveu a nota de dez.

-Ô meu, tu metes a mão no meu bolso, pegas trinta mangos e vem me devolver dez?

-Qual é? Só tinha dez e foi o que eu peguei!

-Tu és ladrão sem vergonha, mesmo, velho pilantra!

-Ladrão é o teu pai...

-Deixa pra lá, tu deves estar precisando, mesmo!

Foi aí que o Thomé, ofendido e cheio de razão, passou a mão em um pedaço de pau e saiu atrás do Magrão. Esse, mais ágil e cheio de sarro (o seu forte) corria e ficava de longe, com as duas mãos na cintura, rebolando e dizendo:

-Lá-lá-lá-ri-lá-lá, vem seu velho ladrão, que eu estou morrendo de medo!

Quando o Thomé avançava, ele se distanciava e recomeçava o sarro. Até que, por fim, o outro percebeu a manobra e entrou no jogo, que era o da turma toda.

Pois foi esse Thomé que morreu domingo e, quando chegou lá em cima, o Porteiro do Céu - preocupado com a possibilidade de bagunça - logo exclama:

-Mais um?

 
Carlos Gama. "www.suacara.com

 

 

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