Nas Brenhas

 

Isso ocorreu, já faz um bocado de tempo. 

Foi na época em que começou a caça aos chamados terroristas, que estavam embrenhados pelo Vale do Ribeira, no litoral sul de São Paulo.

Nessa época, o Magrão era estudante e, como sempre, enfronhado em tudo que é bochicho, batucada ou zoeira, desde que não houvesse grandes comprometimentos. Afinal, o nosso amigo nunca gostou de confusão. Ele participa de tudo, acompanha a todos mas, de maneira política, sem nenhum envolvimento mais sério.

Ele cursava o científico e participava do centro acadêmico. Assistira a muitos acontecimentos desagradáveis, com amigos seus e tomara uma “bronca”, não declarada mas clara, contra todos os “milicos”.

Queria participar, queria ir à forra, desejava vingança mas, a seu modo.

Muitos de seus antigos colegas estavam fazendo companhia ao capitão Lamarca e, a cada vez que o vizinho do andar de baixo saía pelo corredor do prédio, carregando a sua metralhadora, ele vislumbrava os seus amigos sendo abatidos por aquele major e era tomado de uma revolta surda, talvez, até algum sentimento de culpa, por estar ausente.

Naquela manhã, depois de assistir a entrada do militar, na viatura que o viera buscar, ele resolve ir à praia e, no elevador, encontra a mulher do “homem” . Ela entra, sorridente, cumprimenta o vizinho e, pela primeira vez ele presta atenção a ela.

Vai a caminho dos trinta, parece. E ele vai tentando observá-la melhor, sem deixar de lado a discrição.

Ela percebe a manobra e sorri, deixando-o meio encabulado; o que parece difícil. Hoje seria impossível mas, naquela época, era passível de acontecer. Raramente, claro!

Um novo reencontro à tarde; novos sorrisos, retribuição e assim vai o relacionamento. A cada nova saída do marido, os contatos se intensificam, aproximando-os. São longos períodos de ausência e isso facilita o crescimento da “amizade”. Sempre de forma discreta.

Certo dia, em meio ao trajeto do elevador – único local onde conversam – ela aciona um botão que faz parar o elevador. Não se estendeu muito a parada. Apenas o suficiente para um beijo, de leve, na boca, um roçar de corpos e o convite para um aperitivo, logo mais à noite.

No pequeno lapso de tempo, antes que ela permitisse a retomada da caminhada do elevador; o aviso:

-Venha depois que chegar da aula. É um horário em que muitas pessoas já estão dormindo e é difícil que encontre com alguém pelo corredor. Desça no seu andar e suba a pé o andar que falta. Não acenda as luzes. Você conhece bem o prédio, eu vou deixar a porta aberta e as luzes da sala, apagadas.

Foi assim que ele chegou à cama do major.

Acordou, somente pela manhã, com os brados insistentes do Dida, chamando-o para irem à praia.

Vai se levantando, nu, e pretende ir à sacada, quando ela o alerta:

-Lembre-se de que está no meu apartamento!

Ele, então, avisa através da janela – sem denunciar a origem: Vai indo que eu vou depois.

Anos mais tarde, sempre em tom de troça, ele dizia: não pude acompanhar o capitão porque estava nas brenhas, esperando o major.

 

Carlos Gama. "www.suacara.com

02 de abril de 2002 – 13:44 h

 

 

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