O Cognac Francês

 

Os lançantes e os espringues do D’Azeglio estavam passados pelos cabeços e a escada do portaló pendia, meio arriada, defronte ao armazém sete do porto de Santos, naquela madrugada fria e nevoenta de final de junho, em meados da década de setenta.

Além da tripulação do navio italiano, restavam a bordo três profissionais do porto, aguardando o amanhecer, para dar saída à embarcação.

Cansados do dia de labuta, que avançara noite adentro, eles se debruçavam, meio dormitantes, sobre a mesa do escritório do convés. Um deles porém, levantava-se, volta e meia e, impaciente, caminhava pelo pequeno ambiente.

O vai e vem acabou por chamar a atenção do “Por Enquanto” e do “Magrão”. O primeiro deles era meio sisudo e o outro, o oposto.

O Magrão foi sempre assim: sarro e risadas.

Ainda ontem, no velório do “boné” o terceiro personagem, ele fez rir à viúva, relembrando esta história que aqui vai.

Querem saber dos apelidos?

O Magrão vocês conhecem de sobejo e nem é preciso dizer nada. O “Por Enquanto” ganhou este apelido quando ainda era principiante na área do porto e ao ser inquirido sobre qual trabalho preferia, ele respondeu: por enquanto, eu vou ficando...E, por aí, ficou! O “Boné” fez jus ao apelido porque não tirava o dito cujo da cabeça, exceto à mesa. O pessoal, jocosamente, costumava dizer que ele não tirava o boné, nem para tomar banho.

Perguntado pelo Magrão, sobre o porquê de estar andando assim impaciente, o “Boné” conta, que estava em uma difícil situação.

-Seu Baldança, o gerente, pediu-me para “tirar” uma garrafa de conhaque que o comandante lhe deu de presente. Eu não sabia o que dizer e fiquei quieto mas, mesmo assim, ele deixou a garrafa em minhas mãos. Eu não podia simplesmente dizer não e, enquanto eu engasgava, tentando justificar o meu medo, ele me entregou o embrulho e foi saindo.

-Calma! Não se afobe, diz o Magrão.

-Como é que não vou me afobar? Se não levo o conhaque eu danço, se o guarda me pega saindo com a garrafa, aí é que a canjica ferve e acabo indo preso como contrabandista ou perco a minha “cambada”.

Os dois eram novatos na empresa, mas o “Boné” era praça velho; conhecia os tripulantes dos navios da companhia, fazia muito tempo e o Magrão aproveitou para pedir a ele um favor:

-Malandro...Deixa de assombro! Vai dar uma volta para resfriar a cabeça e arruma uma garrafa com água e dois copos, junto a algum dos tripulantes; que nós estamos com sede. Solícito, lá foi ele atender ao pedido do simpático companheiro.

Enquanto isso, o embrulho era aberto e lá estava uma bela garrafa de legítimo “Courvoisier”.

Quando ele voltou, com os copos e a água, já encontrou a garrafa de conhaque, desarrolhada. Pôs as mãos à cabeça, desesperado:

-Vou perder o meu emprego! O que é que eu vou dizer pro homem?

-Não adianta ficar desesperado! A garrafa já está aberta, vamos aproveitar. Tá mesmo um baita frio e ainda faltam algumas horas pra partida. E dizendo isso, o nosso peralta foi servindo o cognac, sem parcimônia.

De gole em gole, os três deixaram vazia a garrafa.

-Hoje não, porque tu vais estar cheirando a álcool, mas amanhã vais até o escritório, levas a garrafa e explicas pra ele o que aconteceu.

-Como é que eu vou dizer pra o chefe que bebemos o seu conhaque?

-É claro que não vai ser isso que dirás! Vais explicar que ficastes de cama, tal foi o susto e o medo que passastes.

-Como assim?

-Dirás que o guarda te pegou, quando saías e queria te levar preso. Mas, ao explicares que estavas atendendo ao pedido do gerente, ele ordenou que despejasses o conteúdo no mar e que se quisesses poderias levar a garrafa vazia.

-E se ele resolver verificar se é verdade?

-Ele não é burro! Sabe que está errado e...Bom cabrito não berra!

-Acho que vai dar certo.

-Não só vai dar certo, como te garanto que ele, nunca mais vai pedir para tirares nada de bordo.

 

 

Carlos Gama. "www.suacara.com

 

02 de agosto de 2002 – 02,07 h

 

 

 

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