O Desligado



Ele não é bailarina e, muito menos, pratica a dança do ventre, mas tem um jogo de cintura que poderia lhe garantir uma longa permanência no campo da política. Além de tudo é um excelente companheiro de farras, esportes, batucadas e atividades congenéricas.
Tem uma bela voz, uma simpatia cativante e toca, com relativa facilidade, um violão. É o tipo de pessoa que faz sucesso em qualquer ambiente em que esteja. Sabe se portar com classe e educação, da mesma maneira como envereda e se afina no clima de malandragem num boteco de pé de morro. Consegue andar bem vestido e caminhar como um lorde inglês, com o mesmo desembaraço com que sai gingando o andar de malandro, dentro de uma bermuda desbotada e um par de tênis dos mais populares ou chinelos de dedo. 
Tal é a sua facilidade no campo da música e tão patente o seu ritmo que, basta que ele principie a acompanhar um batuque, os mais chegados na arte logo se ligam nele, e vem aquela chamada: 
-Ô branco! Chega mais. 
Aí, literalmente, toma conta do pedaço. Sente-se em casa, com pessoal servindo a cerveja, lá vai ele dedilhando o violão ou curtindo o couro do atabaque ao som da própria voz.
Um artista nato e completo. 
O mundo artístico nem imagina o que está deixando passar, nesse quase anonimato, sem que o tire do amadorismo.
Mas o que o gajo tem de simpático no trato e de habilidade na música, tem de desligado.
No ano passado morreu o avô do Beto, seu amigo desde a infância e ele se vê obrigado a ir ao velório, ambiente que não faz muito o seu gênero mas que lhe oferece uma excelente oportunidade de fazer política de boa convivência e exercitar outro de seus dotes artísticos: a encenação, arte que ele adora.
Até aí, nada de mais!
Mas, acaba surgindo de última hora um compromisso comercial que vai obrigá-lo a ir ao Rio de Janeiro e, provavelmente, só deverá voltar uns dois dias depois. Embora lhe desagrade, pois ele gosta de platéia, acaba indo ao velório sem nenhuma companhia. 
Isso talvez tenha alguma vantagem - pensa ele - não preciso me explicar muito e caio fora.
Lá chegando, fica desconcertado; não vê o velho amigo de infância e, sequer, uma cara conhecida. Mas, velho ator, não perde o rebolado; aprochega-se do esquife e, debruçado sobre o morto, começa a carpição.
Em meio ao primeiro ato, eis que chega o neto do defunto e seu amigo inseparável, nos bons tempos.
-Oi, Magrão! O velório de meu avô é ali no outro salão.
-Hem? -Exclama ele em tom de surpresa. Mas, olhando para o cadáver da mulher ao seu lado - sem despregar dela os olhos, entre espantados e já propositadamente tristes, para a encenação do segundo ato - diz:
-Já chego lá! Estou me despedindo de uma velha amiga.



Carlos Gama. www.suacara.com 

 

24 de janeiro de 2002 - 13:43 h

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