O Peru de Natal

 

Lá se vão uns trinta anos, mas o acontecimento foi tão marcante que, mesmo depois de tanto tempo, o Magrão não consegue se esquecer daquele dia, na casa da nonna.

Era a primeira vez que a namorada iria passar o Natal com eles. Era uma daquelas festas de família italiana, com muita fartura, muita alegria e muita espontaneidade; novidade para ela.

Bate-papos ruidosos, muito riso e muita dança, antecederam a hora da confraternização e da comilança.

Depois, era um infinito desfilar em volta das longas mesas fartas, com os olhos debruçados sobre os mais variados pratos. Somente o peru estava intacto e, sem se saber o por quê, permanecia assim. Até que, lá pelas tantas, o seu Alfredo – pai do Magrão – vai passando por perto da apetitosa ave e a irmã lhe pede que destrinche o bicho.

Ele, solícito, vai servindo um, outro, mais outro, até que o primo Alberto se aproxima dele e pergunta – em volume bastante audível:

-Você sabe quem trouxe esta merda?

O primo Alberto era um homem casado, sério, mas depois dos quarenta anos ficou meio maluco e era a Dona Virgínia, tia do Magrão,  sua esposa quem cuidava de tudo, nesse braço família. Quando ela pedira ao irmão para cortar o peru, nem poderia imaginar que o marido fosse fazer aquele escândalo. Ele teve que ser arrastado pelos braços, para fora do salão e, já no jardim conseguiu agarrar-se a uma árvore, da qual não conseguiam que se soltasse. Lá ficou ele, aos berros de: É meu! Quero o meu peru!

No salão, a coisa não andava melhor. A platéia estava divida: metade era a favor do seu Alfredo, achando que ele agiu certo ao atender ao pedido da irmã, e cortar o peru; a outra metade, que não sabia que ele atendera a um pedido da mulher do Alberto, achava que ele fora intrometido e ocasionara, desnecessariamente,  toda aquela confusão.

Nesse segundo grupo estava a irmã do Magrão, agitada e chorosa. Tudo por que o noivo também ali viera, pela primeira vez, e ela se sentia envergonhada, por ser o pai o causador de tudo aquilo.

Ela, em seu descontrole, tentando minimizar o problema, conseguiu fazer a platéia toda rir ao perguntar ao pai, de forma estridente e revoltada:

-Também, pai, o que é que tinha o senhor de botar a mão no peru do Alberto?

 

 
Carlos Gama. "www.suacara.com

 

 

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