PRKÇamba a Rádio Funeral

“A rádio que transporta a notícia e dá vida à cerimônia”

 

 

Costumava dizer o filho que, em matéria de velório, ninguém a superava.

Era figurinha indispensável, carimbada e de suma importância nesses atos solenes. Afirmava até, categoricamente:

-Pode faltar o defunto; a mamãe, jamais!

Ela encarava essa obrigação, e desprazer para a maioria, como uma festa. Cheia de euforia, preparava-se como se fosse a um baile.

Incumbia-se, espontaneamente, da divulgação da notícia. Lançava mão do telefone e fazia, com a maior encenação, a locução da morte. Transmitia o aviso aos parentes, amigos, conhecidos e, se estivesse bem entusiasmada, até aos estranhos.

O genro, deixava maluquinho com essa mania tétrica.

Não que ele se importasse com as mortes, mas ficava doidinho com o sofrimento da mulher e com a impossibilidade de tirá-la daquele estado mórbido e de tristeza incontida.

O que mais o desagradava era o fato de morarem no interior,  horas de distância da cidade natal;  qualquer notícia desse teor, além de desagradável, mantinha a mulher em estado de desespero, pois não podia, sequer, assistir ao funeral e despedir-se do extinto.

Os anos passavam, menos a sogra, e a ladainha continuava, com a mesma insistência e causando sempre os maiores dissabores ao casal.

Além das tristezas ocasionadas pelas perdas e pela impossibilidade de estar presente na maioria das ocasiões, havia ainda aquela guerra que culminava sempre com os desabafos do marido enlouquecido.

Ficava fulo da vida quando via a mulher chorando, sem mais porquês. Mas logo atinava com a razão, a mesma de sempre.  E desabafava em tom de provocação, um palavreado que fazia com que a mulher, já triste, se enraivecesse, também, e chorasse mais ainda.

Mas isso abreviava o tempo de choro e abrandava a raiva do marido:

-Já sei! Sintonizou na PRKÇamba, a rádio funeral. Quando será que essa emissora, para meu sossego, vai sair do ar?

Carlos Gama. www.suacara.com 

25 de dezembro de 2001 – 17:58 h

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