Tana-san

 

Dentre os dotes do Magrão está um, que talvez vocês desconheçam pois, em nossos contatos anteriores, eu creio não haver mencionado: é o seu espírito brincalhão e satírico.

Ele nunca perde a oportunidade de, discretamente, colocar apelidos em todas as pessoas que conhece ou vê, se achar que isso valha a pena. Ele o faz, por sentido de brincadeira e por conta de seu espírito alegre mas, em algumas ocasiões, também permite que a raiva e o desconforto que alguém lhe ocasiona, sejam usados para a colocação destas alcunhas sem chamar a atenção sobre si, naturalmente. Diz que faz isso, como forma de tentar ajudar as pessoas se reeducarem. 

É a sua maneira de, divertidamente, chamar a atenção sobre os comportamentos que precisam ser mudados.

Porém, esse seu espírito alegre, leve, solto, mas discreto, quando conveniente, é que lhe abre as portas e permite que conviva e seja bem recebido em todos os ambientes que freqüenta. 

Foi assim que ele ingressou, primeiramente como convidado e depois como sócio de um clube formado, apenas, por japoneses e descendentes.

Ele foi ao clube pela primeira vez, há muitos anos atrás, como jogador de futebol de salão; depois de ter feito algumas amizades, passou a freqüentar o restaurante no meio e nos finais de semana. Daí à aceitação de sua proposta foi, ainda um longo caminho. Nada mais justo, pois ele não tem qualquer vínculo sanguíneo ou familiar, mesmo que indireto, com os oriundos da terra do sol nascente. Mas a sua sensibilidade, que lhe permite perceber as horas e os momentos certos para cada atitude, abriu-lhe as portas do coração de alguns sócios e, mais tarde, do clube.

Foi durante as idas ao restaurante que ele, crítico e observador, começou a prestar atenção ao Tana-san, um nissei meio gorducho que, em todas as ocasiões se levantava, após a refeição e saía, deixando a cadeira no meio do caminho.

Ele nunca disse nada a ninguém mas observava atentamente e com desagrado, o comportamento pouco educado daquele jovem, todos os sábados. Um hábito que denotava falta de respeito e educação que ele só percebera, anteriormente, entre os seus compatriotas.

Naquele domingo, na mesa cheia de convivas da qual ele fazia parte, alguém observou e chamou a atenção dos outros para a atitude pouco civilizada de Tana-san.

Foi a deixa, há muito esperada, para que o Magrão fizesse o seu comentário:

-Ah, o Tana-san é assim mesmo; ele não consegue colocar a cadeira junto à mesa: sai, sempre, deixando-a no meio do caminho.

-Você já o conhece?

-Conheço, daqui, de vista.

-Mas, como sabe o seu nome? Quem foi que lhe disse?

-O nome eu não sei, conheço somente o apelido: Tana-san.

-Quem foi que lhe disse o apelido dele?

-Ninguém! Fui eu quem colocou o apelido, por causa de seu mau costume de empurrar a cadeira com o traseiro, deixando-a no meio do corredor.

-E o que significa este cognome?

Entre os japoneses e descendentes a risada, mesmo discreta, foi geral, quando o Magrão explicou o apelido:

-Tanajura-San! Muita bunda e pouco cérebro.

 

Carlos Gama. "www.suacara.com

 

23 de julho de 2002 - 12,14 h

 

 

 

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