Vida em Risco

 

No hospital, era uma zoeira só.

Ele não dava sossego, brincando de paquera para cima de cada enfermeira, atendente, auxiliar, médica e, não se duvide que lançasse o seu olhar sátiro cobiçoso, até para cima das freiras.

Foram dois dias de exames que antecederam à cirurgia e ele acabou por ganhar fama de moleque paquerador. Mas, por seu jeito respeitoso e simpático, era bem atendido e conseguiu ficar benquisto, por toda a equipe que com ele conviveu.

Atencioso, engraçado, bem humorado e excelente piadista – mesmo daquelas piadas criadas no momento – ele se transformou no centro das atenções e razão de todos os comentários naquela ala da Santa Casa.

Mas a agitação maior acredito que poderia ser creditada às tensões, e aos temores pré-operatórios porque, depois, houve um decréscimo no calor do clima. Isso, porém, não quer dizer que tenha acabado a bagunça.

Ausência de bagunça ao lado do Magrão, com certeza, nem no caixão! Bem, isso você já teve a possibilidade de constatar naquele episódio das hemorróidas.

Agora ele estava obrigado a manter-se em repouso e sem a possibilidade de praticar qualquer ato que exigisse muitos esforços, porque a cirurgia no estômago demandava um bom período de recuperação e cicatrização. Nos primeiros dois dias, ele estava proibido, até, de levantar-se para as necessidades fisiológicas.

Mas, hoje seria a primeira vez em que ele estava autorizado a se sentar na cama, com o auxílio da enfermeira e, depois, poderia ir até à poltrona e lá ficar por alguns momentos. Foi isso o que lhe disse o médico, durante a visita matinal.

Ele é agitado, a ponto de não conseguir ficar sentado, conversando; passa a maior parte do tempo em pé, pois assim pode ficar se movimentando permanentemente, durante as prosas.

Já não agüentava mais aquela cama, queria experimentar a sua capacidade de movimentação, sem o auxílio de ninguém, e foi se esgueirando devagar, para a beirada do leito.

Em primeiro lugar postou-se de lado, sobre o braço esquerdo e foi, vagarosamente, colocando as pernas para o lado de fora da borda. Aí, sim, ele alçou o dorso e ficou sentado, sem muito esforço. Mas, ainda assim, sentiu algumas dores. Respirou fundo – tanto quanto lhe permitia a recente incisão no abdome – e ficou quieto, matutando sobre a vida e os seus caminhos, nem sempre retos ou suaves.

Quando percebeu que as dores haviam amainado, ele foi deixando o corpo escorregar, em direção à escada que havia ao lado da cama – aquele cavalete ou patamar que se encontra em qualquer hospital, para que o paciente não precise fazer muito esforço para alcançar o leito, ou dele sair em direção ao chão.

Repentinamente, ele se apóia sobre as palmas das mãos, na vã tentativa – as dores não permitiram – de voltar à posição anterior e, como não consegue começa a gritar, com toda a energia que seu estado lhe permite.

Acodem duas enfermeiras mas, meio ressabiadas com a possibilidade de mais uma sacanagem do Magrão, olham da porta e, ao vê-lo com aquele ar de desespero, perguntam o que estava ocorrendo. Ele dirige o olhar para o colo, na tentativa de que entendam, mas elas não conseguem atinar com a razão e ele não pode soltar nenhuma das mãos, a fim de mostrar onde ocorria o problema. Por fim, meio rouco, ele consegue dizer: a grade...

Elas o socorrem prontamente, colocando-o de volta sobre o leito, e caem na gargalhada.

Nem era para menos!

Ele estava de camisolão, sem nada por baixo e, ao escorregar, correu o sério de risco de ficar sem as bolas, presas entre a grade da cama e o colchão.

 
Carlos Gama. "www.suacara.com

 

 

06 de julho de 2002 – 21,55 h

 

 

 

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