Visual Posterior

 

O “Mochila” é um dos mais antigos amigos do Magrão, a convivência existe desde o tempo em que usavam fraldas. As casas onde nasceram, lá na Pompéia, eram geminadas.

Além de serem amigos há mais de dez lustros, nascerem no mesmo ano, em casas contíguas. Isto, porém, não impede que sejam completamente diferentes em tudo. Bem, excetuam-se talvez, os hábitos de molecagem.

Assim como eles, os pais também são muito diferentes entre si.

Os pais do Magrão são vivos, alertas; já os pais do Mochila são meio desligados, andam sempre no mundo da lua.

O engraçado desta história é que, na dupla Mochila e Magrão, o desligado é o último; nesse aspecto parece que os filhos foram trocados.

Ainda na juventude, por mais uma coincidência, os pais dos dois jovens foram transferidos, quase simultaneamente, por necessidade de serviço, para o litoral de São Paulo. O Pai do Mochila para SãoVicente, e o pai do Magrão para Santos.

No início da mudança, até para ver se haveria adaptação, eles vieram sozinhos. Só algum tempo depois é que alugaram apartamentos e trouxeram as famílias. Esse período de adaptação lhes permitiu que procurassem, com calma, o local ideal e que, também, mantivesse o mais próximo possível os inseparáveis amigos.

Acabaram conseguindo dois apartamentos no mesmo edifício, ali para os lados da Divisa. Até isso veio a calhar! Ambos os pais ficavam morando a meio caminho do trabalho. Um deles na terra de Brás Cubas e o outro na de Martim Afonso.

O tempo vai passando, os jovens atingem a maioridade mas, solteiros, continuam morando com os pais. Isso deu ao Mochila mais um encargo: cuidar dos problemas originados pelo esquecimento dos genitores.

Ora eram as luzes que ficavam acesas, durante o dia todo e, no fim do mês a responsabilidade era do Mochila, que ficava lendo até mais tarde. Os dois saiam para um caminhar na praia, no final de semana, e esqueciam uma panela sobre o fogo aceso, obrigando a vizinhança a chamar os bombeiros. Era o pai que resolvia sair, enquanto a mãe tinha ido à feira, avisara mas ele não se lembrara que ela não levara a chave; toca o Mochila sair do serviço par vir abrir a porta para a mãe. Além de tudo, os dois eram teimosos ao extremo e não permitiam que houvesse uma chave reserva, na portaria. Sempre haviam morado em casas e não confiavam em deixar uma cópia das chaves, em mãos de pessoas estranhas.

Naquele sábado eles resolveram ir até São Paulo, fazer umas “comprinhas” na 25 de Março, mas deveriam voltar no mesmo dia.

Muito provavelmente iriam visitar o Beto, o filho mais velho e, no final da tarde, quase à noitinha, estariam em casa.

Tinham levado suas próprias chaves, mas não era difícil que a esquecessem na casa do outro filho, na capital, como ocorrera de outras feitas. Como o Mochila precisava trabalhar o dia todo, na dúvida, deixou as suas chaves com o Magrão, que morava no andar de baixo e era o amigo inseparável, e pau para toda obra.

Como o seu Orlando e Dona Clotilde só viriam no fim do dia, o Magrão combinou com o amigo, que ficaria esperando por eles somente à tardinha, e foi dar um giro pela praia, logo depois do almoço.

Foi nessa vagação que ele encontrou a sua mina. Mês de agosto, praia deserta, ambiente propício para um namoro mais quente; tanto pelo clima frio, quanto pelo vazio na praia. E esse aquece-aquece convidava a ir mais longe. Mas, onde?

Claro! A casa do parceiro estava vazia e ele tinha as chaves. Acertou com a gata, de ela ir sozinha, dali a um pouco de tempo, e ele a esperaria no apartamento.

Quando ela chegou os dois já estavam soltando faísca. Beijos, abraços, amassos e um rola-rola sem fim pelo chão da sala.  A fúria do desejo e o calor da batalha nem permitiram que fossem para o sofá; ficaram ali mesmo sobre o tapete.

Sequer ouviram o som das chaves, na mão do seu Orlando, e a porta se abrindo, ali bem juntinho deles.

Nem quando o Magrão era criança, morando na casa vizinha, eles tinham visto a sua bunda desfilando assim, tão de perto.

 
Carlos Gama. "www.suacara.com

27 de julho de 2002 – 12,48 h

 

 

voltar